sábado, 23 de junho de 2018

De Riscado a Boreli





Eu me lembro que, quando pequeno, meus familiares, como pai e tios, sempre contavam anedotas envolvendo questões raciais e eu, uma criança de oito anos, achava super engraçado. Eu vou repetir esse trecho: “Eu, uma CRIANÇA DE OITO ANOS, achava super engraçado”.

Eis que nos deparamos com alguns anúncios do mais recente clipe de Nego do Borel, que será lançado em julho, mas, antes de eu prosseguir com essa “pérola” do cantor, gostaria de citar rapidamente um outro clipe seu: Pretinha Vou Te Confessar.

No clipe, de 2016, o cantor faz par romântico com uma mulher branca (Aline Riscado), cabelo liso, curvilínea e todos os outros jargões do padrão de beleza que já conhecemos tão bem. Lembro que, na época desse clipe, o cantor chegou até a ser questionado sobre por que não uma musa negra. Não soube responder. Ledo engano.

Voltando o foco então para o novo clipe, encontramos então a resposta não dada na época sobre o motivo de ter escolhido uma musa branca para estrelar Pretinha Vou Te Confessar, em 2016: o estereótipo racista da mulher negra.

No novo clipe, o cantor encarna a Nega da Boreli, uma personagem negra que não tem instrução, não sabe se comportar, não é atraente, tudo isso reforçado com trejeitos exagerados do cantor e com uma maquiagem caricata mostrando que a Nega da Boreli é diferente da “Aline Riscado” justamente por ser uma mulher “acima”.

Surge então novamente a pergunta: Por que será que dessa vez, para ilustrar uma personagem feia, barraqueira, “favelada”, que fala errado, não sabe se vestir, não foi chamada uma bailarina como a Aline Riscado? A resposta é bem simples: porque o machismo e o racismo já são tão fortemente enraizados na nossa cultura que, mesmo quando nos deparamos com releituras dessas questões, muitos ainda conseguem achar engraçado.

Se eu ainda tivesse oito anos de idade, talvez achasse graça, mas hoje, com os 30 vindo à tona, sei o que é reprodução de racismo. O que incomoda, é que muitos ainda se comportam como uma criança de oito e, o que é pior, insistindo em viver na Neverland da alienação.

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Leandro Faria  
Victor Miedi: geek, gamer e grande entusiasta da sétima arte, cursou Licenciatura em Letras e Literatura. Também foi o criador do extinto canal Cineverso, no Youtube, onde fazia críticas de cinema.
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