terça-feira, 5 de junho de 2018

Descobrindo o Perdão Por Meio das Minhas Próprias Sombras





No último fim de semana, participei do laboratório O Ator e a Sombra II, que certamente entrou para galeria de eventos mais viscerais que já vivenciei. Já fazia tempo que gostaria de conhecer o trabalho da atriz, diretora e produtora Gabriela Linhares, e aquela era a oportunidade de saber como era a condução dos seus processos de preparação. 

Resolvi deixar parte da minha racionalidade de lado e tentar, de fato, entrar nesse mundo que venho alimentando há alguns anos de forma alternativa à minha rotina de vida: a arte cênica. Mas essa era uma experiência diferente. Haviam até pessoas que não eram de teatro, afinal, a ideia era bem mais ampla. Foram três dias de tão intensos estudo e experimentos que, às vezes, me sentia numa prova de resistência digna de reality show

A proposta era escrever em um pedaço de papel as nossas cinco maiores sombras, os nossos cinco pecados capitais, algo que sentíssemos nojo em nós mesmos. A maior vergonha que tivéssemos dentro de nós. Ferir o músculo e deixar aparecer tudo que se escondia debaixo dele. E então escrevi sentimentos e comportamentos naquele papel que nem nos meus momentos de confissão para mim mesmo, tive coragem de fazer.

As carnes aos poucos começaram a ser abertas. Rasgaram-se as peles. Os músculos. Resistia em ultrapassar as barreiras e não queria permitir que o meu bulbo ósseo aparecesse. Eram sombras muito escuras. Já havia escrito no papel e ninguém precisava saber qual era o meu pedaço apodrecido. Acho que vou embora! – pensei. Para que me expor aqui? Para que passar por essa situação depois de 37 anos de idade e uma vida profissional, amorosa e financeira que posso considerar estável? (primeira sombra se manifestando: Soberba). Não precisava de mais nada. Tudo que eu queria, já tinha e me bastava. Eu já me conhecia e sabia das minhas necessidades (Vaidade). Mas se não me entregasse ao aprofundamento daquele estudo, de que valeria a experiência? Era o trilhar de um caminho que precisava concluir. Não me permito deixar nada que inicio pela metade. Mesmo que o resultado depois não saia conforme o esperado.

As sombras que apresentamos no primeiro dia eram a inspiração para criarmos situações, encenações e julgamentos para os outros... E sermos julgados... Em um outro momento, éramos inquiridos por várias pessoas em uma sala de luz vermelha, como nos filmes de suspense. Não, eu não sou nada disso!  – afirmava convictamente dentro de mim a cada apresentação que me definia. Mas até o final do processo tudo iria mudar... E a partir do olhar do outro sobre nós, passamos a descobrir as fontes de alimento daquele lado negro da nossa personalidade. Percebemos, quase que num processo de transe, que os nossos maiores sabotadores éramos nós mesmos, e não os outros a quem culpávamos pelos nossos fracassos ou pecados.

As minhas principais sombras foram: Mágoa, Vaidade, Soberba, Raiva e Inveja. Corajoso escrever aqui que sou invejoso? Não. Digamos que seja um exercício para neutralizar algo que eu não conseguia assumir para mim mesmo. No meu dia-a-dia, essas sombras aparecem sem eu me dar conta de que elas estão ali. Creia, isso acontece com você também! Ninguém é 100% virtuoso. Dissertar sobre cada uma destas sombras tornaria o texto por demais extenso, mas foi por meio dos meus próprios pecados que percebi que posso potencializá-los para o bem, ou para o mal. E esse direcionamento pode ser consciente ou inconsciente. E na minha inconsciência percebi que ter uma raiva muito aflorada, me torna impetuoso, corajoso e desafiador. E ela me impulsiona a conquistar o que almejo e me superar quando duvidam de mim ou da minha capacidade. Me motiva a despertar o incômodo no outro. Já no campo da minha consciência, percebi que sou quase nulo (ou totalmente) de uma virtude: o perdão. Sim, não sou uma pessoa que consegue perdoar. Se me fizeres algo de ruim, ou a alguém que eu goste, estarás marcado para sempre na minha lista negra. Terei o prazer de lhe dizer não ao menor e mais simples pedido de ajuda. Sua atitude ficará arquivada no meu HD cerebral e tal qual aprendi na faculdade “tudo que disser e fizer, pode e será usado contra você em juízo”, faço valer essa máxima. E quem dá a sentença nessa história sou eu. 

Poderoso ou um coitado? Ou ambos? Descobri que algumas pessoas me achavam vazio. E descobri que esse vácuo é alimentado pela minha incapacidade de perdão. E descobri que essa incapacidade me impede de evoluir. Como espírito, como ser humano. E descobri que também quero ser perdoado, pois também falho. E me sentiria muito mal se um dia, mesmo diante de um pedido sincero de perdão meu, carregado de real arrependimento, ouvisse: “Não! Tudo que você fez, pôde e foi usado contra você”. E o no banco dos réus, agora estaria eu. Diminuto, injustiçado, infeliz. 

Saí de lá com a reflexão do que me coloca num patamar superior pretenso a julgar? Confesso que ainda não encontrei essas respostas e confesso também que não consigo (ainda) perdoar. Mas antes eu tinha a consciência do não querer conceder o perdão. E hoje.... Bem, hoje eu já começo a pensar nessa possibilidade, pois no banco dos réus, um dia poderei estar eu, à luz e semelhança de tudo que eu sempre abominei e... amei.

Leandro Faria  
Julio Britto, carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: