sexta-feira, 29 de junho de 2018

Hiperconexão Dissimulada





Constantemente tenho abordado o tema “redes sociais” aqui no Barba Feita, pois é algo que, nas mesmas proporções, me fascina e me amedronta. Também já tive a oportunidade de poder compreendê-la profundamente, através da forma acadêmica, quando suas representações simbólicas e a dinâmica do discurso das redes foram a base de meu objeto de estudo para meu projeto no mestrado.

Lembro-me que, na época, gostaria de ter entrado em uma análise que, infelizmente, acabou ficando de fora de minha dissertação devido à quase nula bibliografia e observações sobre esse tema: o slacktivismo.

Talvez você nunca tenha ouvido, mas esse termo é um neologismo de duas palavras em inglês (slack = preguiça + ativism = ativismo), que em português tem a tradução ou sentido de “ativismo de sofá”, descrevendo um pouco da atitude apática que as pessoas tem com as ações nas redes sociais online

Antigamente, quando uma causa parecia importante dentro de um contexto social, as pessoas saíam às ruas e deixavam a comodidade de seu lar. Hoje, com um único gesto, curtir e compartilhar um post já se tornou um sinônimo de estar fazendo a parte que lhe compete. 


No período em que estava elaborando meu projeto acadêmico, o universo que observei era o dos possíveis candidatos à doação de sangue voluntária que proliferavam no Twitter e no Facebook em dois momentos de tragédia no Estado do Rio de Janeiro: durante as enchentes na região serrana e no assassinato de crianças em uma escola pública na zona oeste. Em ambos os episódios, houve um aumento fantástico de candidatos à doação de sangue, o que gerou uma quantidade imensa de bolsas. Mas o que podíamos observar nas duas redes sociais eram movimentos muito mais voltados ao compartilhamento do discurso proferido pela entidade do que, em si, uma ação originalmente pessoal.

O slacktivismo está muito presente em ações que talvez nem percebamos: estão nas petições online, estão no ato da mudança do avatar incluindo uma marca que apoia uma determinada causa, está no “curtir” e “compartilhar” do Facebook e nos likes do Instagram e até mesmo nas transmissões ao vivo. Já vi até transmissão ao vivo de parabéns de festa de aniversário infantil e um monte de gente entrando no live dizendo “ah, infelizmente não pude estar aí, mas desejo toda a felicidade do mundo para a sua princesinha...”. Sei lá, acho no mínimo, estranho de ambas as partes.

Evento em Facebook é outra chatice. Se você está em dúvidas, diga que tem interesse, mas sinalize que ainda está decidindo se poderá estar lá no dia. Se você marcou que comparecerá, faça de tudo para ir, realmente. Se não puder ir, desmarque e avise que não vai poder ir. E se já de cara você já saber que não poderá ir, avise que não poderá e ponto final. Não tem coisa pior do que clicar lá no “comparecerei” só pra fazer volume. Isso é uma vertente do slacktivismo, com um pé no clictivismo, que algumas organizações utilizam para quantificar o seu sucesso através de uma estatística de número de cliques.

Esses fenômenos são consequências da globalização, eu sei. Marshall McLuhan profetizou esse lance de “aldeia global” lá nos longínquos anos 1970. Não restam dúvidas de que a globalização nos permite estarmos mais conectados aos amigos que moram longe. Isso, de fato, é maravilhoso, assim como ligar o GPS em seu celular quando você está perdido na rua, ou pagar contas em um APP qualquer, sem precisar ir ao banco.

Mas essa coisa de hiperconexão, por muitas das vezes, é muito dissimulada e artificial. Deixamos de ir ao restaurante para recebermos uma caixa morna pelo iFood. Aliviamos as tensões hormonais pelos APPS de pegação, que dão a localização exata do prato principal, como um menu de restaurante, com fotos fakes como os sanduíches do McDonald´s.

Não precisamos estar o tempo inteiro utilizando a tela dos computadores e celulares como um escudo protetor. Você pode não acreditar, mas existe uma vida lá fora.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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