sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Tempo Não Para?





Eu já deixei de acompanhar novelas desde o tempo de Avenida Brasil (que provavelmente foi a última em que não perdi nenhum capítulo). Depois disso, vi capítulos aleatórios de uma ou outra e nenhuma chegou a chamar minha atenção a ponto de eu sair correndo do trabalho a tempo de não perder o início do folhetim.

Mas essa semana, ao ler uma nota no jornal sobre a próxima novela das 7 da Globo, fiquei interessadíssimo na história que vai estrear mês que vem. Escrita por Mario Teixeira (considerado o novo Walcyr Carrasco da Globo), se chamará O Tempo Não Para e vai trazer um tema bem intrigante.

A trama terá início em 1886 quando uma rica família paulista, exploradora de minérios e telefonia, sofre um acidente durante uma viagem de navio para a Europa (algo bem Titanic – com um iceberg no meio). O navio afunda e parte dos passageiros acaba sendo congelado devido às baixas temperaturas das águas do oceano. Depois de 132 anos, um grande bloco de gelo com os corpos da família chega à São Paulo de 2018 e cada um dos personagens começará a despertar e enfrentar uma realidade contemporânea, bem diferente da que deixaram, no século XIX. No caso da futura novela, a família “perdeu” fatos importantíssimos como duas guerras, o surgimento do cinema, a ida do homem à Lua, os avanços científicos na medicina e a chegada da internet, além de toda uma mudança revolucionária nos hábitos e costumes da sociedade, o que certamente deixaria os mortos-vivos estarrecidos.

(...)

Curiosamente, dia desses estava exatamente conversando com uns amigos sobre a fantasiosa possibilidade de um retorno post mortem... Imaginem se, após termos partido “desta pra melhor” tivéssemos a oportunidade de retornar e reaprender a conviver com as particularidades do comportamento humano? 

Nesse papo nonsense, citei alguns cantores, como Cazuza, Renato Russo e Kurt Cobain. Cazuza já tinha inclusive feito uma previsão em uma de suas canções onde já afirmava que o tempo nunca parava. Em 1988 ele viu “o futuro repetir o passado” e “um museu de grandes novidades”. Renato também foi o rei das previsões bem-sucedidas; a grande maioria de suas canções parece ter sido escrita hoje de manhã, como Perfeição, de 1993, onde cita a “estupidez do povo, nossa polícia e televisão (...) nosso estado que não é nação, a juventude sem escola, as crianças mortas, a desunião, os mortos por falta de hospitais, o trabalho escravo e nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada”. Que País é Esse?, lançada bem antes (em 1987), também já mostrava um cenário que não mudou muito de lá pra cá... “nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado... ninguém respeita a Constituição”, bradava o trovador solitário. Kurt, com seus decibéis sempre acima da média, berrava a plenos pulmões toda a crítica à indústria fonográfica e o cheiro do espírito juvenil. 

Os três morreram jovens. E suas histórias permanecem. Mas se voltassem, mesmo que por um único dia, talvez por desgosto por nada ter sido modificado desde que deixaram tudo isso aqui, Cazuza também morreria de overdose como seus heróis, Renato se jogaria da janela do quinto andar e Cobain estouraria o outro lado dos próprios miolos.

Ah, se liga, o Barba Feita agora está no Instagram!
Segue a gente lá:
@BarbaFeitaBlog

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: