quarta-feira, 20 de junho de 2018

PH Também Fala "Oxente"





Semana passada falei um pouco sobre o reencontro com a cidade natal do meu pai e com a antiga casa dos meus avós no exato dia do meu aniversário. Nesses dois últimos anos tive a oportunidade de rever parte das minhas raízes paternas que andavam esquecidas: além da viagem de agora, ano passado revi parte dos meus primos e um tio com quem não estava desde muito pequeno. Dessa vez, estive novamente com a minha tia mais nova e minhas primas que ainda moram em Mogeiro (PB), e também com meus primos que moram em Olinda (PE).

Durante muitos anos, sempre fui mais apegado à minha família materna (com exceções, claro... Há tios e primos por parte de pai de quem sou muito próximo). Mas a referência mais próxima da minha avó e do meu avô, meus primos com quem fui criado junto na infância e adolescência sempre foram pelos laços maternos. O sobrenome que escolhi usar profissionalmente (Brazão) herdei da minha mãe e não do meu pai (Sobral). E me lembro que isso foi a guinada em um determinado momento da minha adolescência. Até então, eu assinava tudo como Sobral (inclusive minha assinatura na carteira de identidade tem apenas o Sobral por extenso).

Meu pai também se chama Paulo e ser "Paulo Sobral", como ele, trazia um certo peso pra mim. Afinal, que eu conhecesse, apenas eu era Paulo Brazão (embora eu persista no Henrique no meio, na minha empresa ninguém o usa...). Curiosamente, ambos sobrenomes são portugueses e, até onde sei, a origem de Sobral é até mais nobre que a de Brazão.

Mas voltando à experiência em si, de alguma forma eu havia criado resistência à origem nordestina do meu pai. Talvez pela mania dele de sempre exarcebar o lugar de onde veio de forma hiperbólica e às vezes até inverossímil. O que não deve ser confundido com preconceito contra o Nordeste: pelo contrário, sempre fui o primeiro a defender quando ouvia alguma ofensa à região, em especial alguma piadinha com a Paraíba.

Lembro de já ter retrucado meu pai quando ele falava das maravilhas de onde veio, indagando que, se era tão bom, porque ele veio ao Rio de Janeiro e não ficou lá. É óbvio que meu pai sabe que Mogeiro não era um lugar bom para viver a vida, caso contrário não viria com 14 anos pro Sudeste morar com uma irmã numa comunidade carente. Sabia que a cidade natal era um local onde ele teve que tomar mamadeira de farinha de mandioca e comer cacto para sobreviver junto aos 11 irmãos que sobreviveram (quatro não vingaram ainda muito pequenos). Mas por que esse carinho excessivo com as suas origens?

Aí de repente essa viagem me fez todo o sentido. Deu-me o estalo da nostalgia que habitava e ainda habita o meu pai. Estar ali naquele momento tão especial para mim foi tão emocionante que não precisei fazer muito esforço para compreendê-lo. Ele não sentia falta daquele lugar exatamente; sentia falta da sua infância e do início da adolescência, onde ainda havia uma inocência que a vinda ao Rio o tirou. Em pouco tempo, em terras cariocas ele teve que se virar sozinho e batalhar para sobreviver desde muito novo. Teve que se separar de seus pais e parte dos seus irmãos... Hoje em dia, falar sobre isso é muito tranquilo para ele, mas imagina a dor que foi à época? Um garoto de 14 anos sendo desgarrado de praticamente tudo o que ele conhecia e vindo morar na segunda maior metrópole do país... Não foi fácil.

De certa forma, passei a carregar um novo orgulho do meu sobrenome paterno e das minhas origens. Reencontrar pessoas tão maravilhosas que carregam parte do meu sangue também foi a grata surpresa nesses anos. Senti-me acolhido por cada uma delas e mais pertencente à família. 

Sim, sou meio fluminense e meio paraibano. Niteroiense com raízes nordestinas. E não sosseguei enquanto não comprei uma camisa escrito "Oxente!" em letras garrafais na feirinha de artesanato em João Pessoa. Sinal dos tempos; de tempos de resgate e reencontro.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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