sexta-feira, 15 de junho de 2018

Se Estamos Presos ao Modelo, Somos Parte Dele




Certamente não sou só eu que tenho a impressão de que o Brasil desce ladeira abaixo. Nem gosto muito de comentar sobre assuntos políticos, pois quando começo a falar acabo sendo muito incisivo e muitos confundem os meus argumentos com o discurso de estar defendendo X ou Y ou a velha babaquice de estar do lado dos coxinhas ou mortadelas. Então, para evitar o desgaste, evito começar o embate e prefiro ficar somente na aura simbólica, pois assim, só os fortes entenderão.

Mas em algumas situações, é inevitável que saiamos da linguagem metafórica e tentemos ser mais didáticos para que o povo possa compreender certas coisas. Como muitos sabem, já estou há muito tempo trabalhando como jornalista dentro da área de saúde. E lá se foram uns 15 anos vivenciando os absurdos de gestões governamentais que, a cada ano que passa, só deterioram ainda mais as unidades de saúde pública.

Infelizmente, quem necessita de atendimento público em alguma unidade hospitalar, está muito lascado. Por mais que haja um esforço sobre-humano de todos os profissionais que atuam nesta área, não dá para se fazer milagres. Os hospitais estão sucateados e desabastecidos. Profissionais estão sem receber seus salários. Não há nenhum esforço dos governos (seja na esfera municipal, estadual ou federal) em reverter a situação, pois há muito jogo de interesses políticos na derrocada total do Sistema Único de Saúde (SUS) para a implementação de planos de saúde populares, que obviamente sairão de nossos bolsos.

O problema é que essas coberturas “populares” têm seus limites. E no final das contas, os tratamentos de alta complexidade vão acabar caindo no colo do velho SUS de guerra. Hoje, tratamentos de tuberculose, saúde mental, cirurgias de mudança de sexo, profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV e a distribuição de medicamentos para pessoas que vivem com o vírus da AIDS é realizado de forma gratuita e exclusiva pelo SUS. Mas... até quando?

Recentemente, a saúde sofreu mais um baque por causa do crédito extraordinário de 9,5 bilhões de reais que o governo federal concedeu ao Ministério de Minas e Energia e Defesa para subsidiar o diesel, depois da paralisação dos caminhoneiros. Você achou que o presidente estava sendo simpático quando resolveu assinar essa medida provisória cedendo o crédito? De onde você acha que saiu esse dinheiro?

Se você não sabe, boa parte da verba saiu através de cortes financeiros nas áreas fundamentais como segurança, educação e saúde, esta última, uma das mais prejudicadas, com a extinção de aproximadamente 75 programas e projetos do setor, que totalizam quase 180 milhões, dentre eles o desenvolvimento Tecnológico e Inovação para a Prevenção e Vigilância de Doenças Transmissíveis; educação e formação em Saúde; aperfeiçoamento e Avaliação dos Serviços de Hemoterapia e Hematologia; Construção dos Institutos de Saúde da Mulher e da Criança e de Infectologia; atenção especializada em saúde mental, de reestruturação dos serviços ambulatoriais dos hospitais universitários federais, Sistema Nacional de Transplantes, entre outros.

Obviamente, essas ações descabidas gerarão mais desassistência aos brasileiros, sucateamento das unidades e deterioração do próprio sistema, que há anos, só respira por aparelhos.

E só há um jeito de não deixar o país descer ladeira abaixo e pode até parecer piegas o que estou aqui, concluindo, mas definitivamente precisamos levantar da frente da TV, sermos menos passivos e darmos um enorme basta. Não somos obrigados a aceitar tudo que nos é imposto... Se estamos presos ao modelo, somos parte dele. Não é o povo que tem que temer (sem trocadilhos, por favor) o seu governo, mas sim, o governo que deve temer o seu povo.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Quando todos tomarmos consciência da nossa força, a situação se transforma a nosso favor!