quarta-feira, 27 de junho de 2018

Tornar-se Humano





Quantas vezes a humanidade demonstrou a sua crueldade de forma coletiva? Em quantos momentos ao longo da História cometemos genocídios e crimes contra a nossa própria espécie, subjugando um grupo ou etnia simplesmente por ser/ter algo diferente? De forma mais difundida, não é difícil lembrar da escravidão dos negros africanos e as progressivas chacinas dos indígenas nos tempos coloniais e pensar também no Holocausto. Isso sem contar o extermínio da Sérvia contra croatas, bósnios, albaneses e outros povos da antiga Iugoslávia; a perseguição russa contra chechenos; o massacre de hutus contra tutsis em Ruanda; o dia-a-dia de favelas brasileiras... 

Essa semana fomos surpreendidos com o presidente americano Donald Trump se superando em suas decisões desumanas, separando pais e crianças imigrantes em jaulas. Trump, por diversas vezes, já foi comparado a Hitler por suas atitudes e agora não foi diferente. Curiosamente, nessa mesma semana, eu zerei pela primeira vez na vida um jogo de PlayStation chamado Detroit: Become Human. O que tudo isso tem a ver? 

Detroit é um jogo que se passa em 2038 sobre androides, mas que fala mais ainda sobre humanos. Nele, você controla a história de três robôs humanoides, cada um com a sua especificidade: Connor (um policial, caçador de “divergentes”, que são os androides que desobedecem seus donos e passam a seguir vontades próprias), Markus (um cuidador de um idoso que acaba se tornando um líder dos divergentes) e Kara (uma doméstica que presencia os abusos de um pai contra uma menininha, Alice). O jogador é responsável pelas escolhas de cada um dos personagens e cria laços com eles, se preocupando com suas próprias vidas. E aí vem o primeiro debate filosófico do jogo: o que é vida? É estar em uma matéria orgânica que se decompõe após a sua falência? Ou é ter consciência? Faz sentido aqui a famosa frase de René Descartes, “Penso, logo existo”? Ou a vida é um processo meramente biológico? 

Aí também é possível remeter aos crimes contra a humanidade que mencionei no início desse texto. Quantas vezes não passou pela cabeça de genocidas que o povo atacado e dizimado não teria uma vida com o mesmo valor da sua? Ou que não teria inteligência? Ou que não teria alma? Ou que seriam apenas um monte de trastes imprestáveis, que nada acrescentavam ao planeta? Quantas vezes isso ainda não ocorre com negros, mulheres, pobres, gays não muito longe de nós... 

Detroit também explora a questão religiosa e a nossa eterna busca pela religação com algo perdido, em especial através de um Messias que venha para nos salvar. Pelo debate proposto pelo jogo, seria Deus também apenas a criação coletiva de uma série de consciências? Mesmo os humanos não biológicos seriam capazes de criar suas divindades à sua imagem e semelhança? 

O tempo todo sabemos que as histórias de Connor, Markus e Kara irão se cruzar e teremos que tomar decisões ainda mais difíceis. No meu caso, o jogo rendeu praticamente o enredo de um filme completamente diferente de outras pessoas que estavam jogando (seja na minha família ou amigos que estavam em outras fases). Embora torçamos pelos três androides (e muitas vezes aqui eles estão em posições antagônicas), o jogo também nos demonstra uma suposta realidade cruel para os homens nesse futuro não muito distante: o desemprego exorbitante causado pela substituição da mão de obra humana pelos robôs, que executam tudo à perfeição e nunca cansam. Como reagiríamos (ou reagiremos) a essa nova realidade? Como nos adverte Chloe, a androide hostess que serve de interface do menu: “Isso não é apenas uma história. É o nosso futuro”

Vale (muito) a pena jogar e refletir com Detroit: Become Human. Até porque, para muitos, ainda falta se tornar humano, ainda que tenha se nascido como um. E, na mesma semana, tivemos provas claras disso...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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