terça-feira, 26 de junho de 2018

Vale Tudo: O Brasil Que Continua o Mesmo Depois de 30 Anos





Eu, como um fanático por telenovelas, é claro que passei a assistir pela enésima vez a reprise de Vale Tudo, que está sendo reexibida desde o último 18 de junho pelo Viva. A novela de Gilberto Braga, com quem ele dividiu a assinatura com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, em 1988, é considerada até hoje um clássico da nossa teledramaturgia. Exibida originalmente há 30 anos, quando eu completava os meus 8 de idade, abordava em seu enredo principal a questão: “vale a pena ser honesto no Brasil, um país onde tanta gente se dá bem, sendo desonesta?" 

A cena mais emblemática para mim (pasmem!), não foi a morte ou a descoberta do assassino de Odete Roitmann, mas uma das sequências do último capítulo em que Marco Aurélio, o corrupto empresário vivido por Reginaldo Faria, fugia em seu jatinho dando uma banana (gesto de braços cruzados que indica xingamento) para o país, lá de cima, mirando o cartão postal do Rio de Janeiro com absoluto desdém.

Talvez poucos lembrem, mas em 2011, quando repetiu a cena da fuga de outro empresário corrupto, Horácio Cortez, então vivido por Herson Capri, também em seu jatinho particular, em Insensato Coração – novela do mesmo autor sem tanta representatividade de público –, o plano do vilão era interrompido por um par de algemas que, de repente, o detia. Na ocasião, o autor declarou, esperançoso, que o Brasil já não aceitava mais a impunidade.

Agora, 7 anos depois dessa “redenção”, caro leitor do Barba, digo-lhe: existem sim alguns casos de punição na Lava-Jato, apenas para citar como exemplo de uma das operações de investigação de corrupção em nosso país, mas também há casos de inúmeros acusados, com provas cabais, que escapam (?) da Justiça. Figuras que são notórias em nosso cenário político e se mantém no poder à base da compra de votos de deputados, senadores e juízes para que seus casos sejam abafados ou simplesmente tenham uma “interpretação diferente da legislação penal” pelo órgão julgador, dos fatos que concretamente se apresentam aos nossos olhos. 

A novela, uma das melhores que eu pude assistir até hoje, era tão completa e coesa em seu enredo que até a trilha sonora se encaixava perfeitamente a cada passo do folhetim. Quem não lembra da emblemática abertura, com Gal Costa interpretando, quase em tom de protesto, a canção Brasil, de Cazuza  e Gonzaguinha, explicitando que “a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela”, que convenhamos, uma letra muito adequada para os dias de hoje?

O título, ainda, fez sucesso para além dos números do Ibope. Suscitou grandes discussões no país sobre ética e relações humanas. Também foi a primeira novela a abordar a homossexualidade sob o contexto dos direitos civis entre parceiros do mesmo sexo. Na história, as lésbicas Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Christina Proshaska) viviam juntas em uma pousada em Búzios, propriedade de ambas. Quando Cecília morre em um acidente de carro, Laís se vê no desconforto de reivindicar a condição de herdeira para a família dela. Situações retratadas até os dias de hoje, e muitas delas carregadas de preconceito velado de nossa sociedade.

Lembro de ter assistido um dos episódios da série Os Donos da História, do canal Viva, que reprisa atualmente a novela, em que Gilberto fala sobre sua inspiração para o desenvolvimento da novela. Ele contava que Vale Tudo surgiu de uma discussão familiar, no meio de um jantar. Seu padrinho, irmão de sua mãe, delegado de polícia, foi chamado de “medíocre e babaca” por um parente. “Ah, ele foi delegado em Foz do Iguaçu e Belém e poderia estar rico. Todo mundo que foi delegado nestes lugares tem apartamento na Vieira Souto e ele não tem nada, é pobre”. Discussão muito atual, não? Esse episódio pode ser bem retratado no início da novela, quando num diálogo entre avô e neta (Salvador, vivido por Sebastião Vasconcelos, e Maria de Fátima, Glória Pires) mostra aquilo que nossos pais sabiam, mas que os relativistas pós-modernos conseguiram avacalhar: que dignidade não tem preço e que não é porque “todos roubam” que também vamos roubar, nem mesmo em pequenas coisas. Uma lição moral bastante necessária nos dias de hoje. A vilã ironiza cantando um trecho do hino nacional e completa: "Será que se livrar um amigo meu de pagar uma mixaria de imposto vai levar o país à falência?"

A cena termina com a fala do avô: “O país já foi à falência econômica e moral". É ou não é uma trama atual mesmo depois de 30 anos?

E enquanto isso, nós, meros cidadãos, continuamos acompanhando os jogos da Copa do Mundo, com a mão no peito ao soar o hino nacional e, ao contrário dos grandes governantes, seguimos cantando com o coração sangrando:

“Grande pátria desimportante
Em nenhum instante eu vou te trair...”

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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