terça-feira, 10 de julho de 2018

Brasil: "A Pátria de Chuteiras"




Caso tivesse vencido na última sexta-feira (06/07) seu confronto com a Bélgica, hoje, a seleção brasileira estaria disputando uma das vagas nas semifinais da Copa do Mundo 2018. Apesar do assunto ter sido abordado aqui no Barba em outras colunas, sob outras óticas, é inevitável não voltar ao tema.

Diferentemente dos dois aficionados em futebol da nossa Seleção do BarbaPaulinho e Marcos – colunistas das quartas e sextas-feiras, respectivamente –, confesso que sou mais tendencioso ao gosto do meu amigo Silvestre – quintas-feiras: não gosto de futebol. Tanto que nem sabia qual era o time que enfrentava o Brasil na estreia! Mas para não deixar de citar todos, confesso que tenho um “quê” do Leco (colunista das segundas-feiras), pois gosto de aproveitar esse momento de folia fora de época no país para dar uns bordejos e curtir a festa e comemorando, claro, quando a seleção sai vitoriosa.

Preâmbulos e homenagens à parte, a minha intenção era (tentar) dissertar sobre o jargão “Pátria de Chuteiras”, que tomou conta das canções que embalaram comerciais de cervejarias e bancos. Não bastasse isso, há ainda uma campanha do Governo Federal (Fora Temer!), onde a proposta consiste em usar essa expressão para posicionar o conteúdo de comunicação do governo federal sobre futebol, mobilizando os brasileiros para o envolvimento com o esporte. “Paixão como a que inspirou 200 milhões de brasileiros e brasileiras a jogarem juntos e a transformarem o país do futebol no país da inclusão social, da criatividade, das oportunidades e da superação.” – diz um fragmento do texto, no site oficial do governo federal, que me soa como ironia, pois somos tudo, menos um país inclusivo e de oportunidades.

Talvez poucos saibam, mas a célebre frase de autoria do escritor e jornalista brasileiro, Nelson Rodrigues (a quem amo de paixão), tem origem em várias de suas obras sobre futebol, dentre elas, as coletâneas de crônicas, intituladas A Pátria em Chuteiras e À Sombra das Chuteiras Imortais, onde o foco era, principalmente, dissertar com seu humor ácido, porém extremamente inteligente de dizer a realidade, sobre futebol.

Curiosamente, nesta mesma semana de derrota nos campos, fomos acometidos de duas novas notícias políticas (e de mais uma derrota para o time da população): uma sobre a libertação do ex-presidente Lula e outra sobre o prefeito do Rio e sua assessora “faz-tudo”, D. Márcia (fora Crivella!). E o mais engraçado de tudo isso é ver a população silenciando as cornetas assim como emudeceu suas panelas. Falar de política me cansa. E ao mesmo tempo me instiga. Não posso, enquanto cidadão, me calar diante dos fatos sem sequer me manifestar, ainda que para um público limitado. Seria uma traição, não só com os que me cercam, mas, principalmente, comigo mesmo.

Sobre o primeiro caso, temos uma clara demonstração do desprestígio e derrocada da lisura de nosso poder judiciário. Não entrando no mérito de nomes dos senhores juízes envolvidos e tão pouco sobre o nível de culpabilidade do acusado, atrevo-me dentro do meu parco conhecimento jurídico, adquiridos em cinco anos de faculdade, a trazer apenas uma reflexão: o magistrado responsável pela condenação do ex-presidente em primeira instância não tem competência e nem atribuição de dizer que não vai cumprir a decisão do juiz de segunda instância (isso é o que diz a legislação vigente e não eu, ok?). Ele deveria oficiar o juiz natural do caso, como até fez, e só. Não cabe a ele dizer que “não vai cumprir”. Quando assisti à reportagem na televisão, lembrei daquela galera dançando e cantando ao som de micareta no “Fora Dilma, Fora Lula, Fora PT” e me deu vontade de rir. Enquanto isso, na Transilvânia verde-amarela, o ilegítimo transforma o país num grande tabuleiro de xadrez e nós somos meras peças que são manuseadas conforme a vontade dele e de seus comparsas.

Para fechar com chave de latão mesmo (visto que nem bronze estamos conseguindo), chegou aos canais televisivos e outros meios de comunicação, os áudios do nosso querido prefeito carioca (aleluia!), onde ele favorece indiferente à uma população carente e necessitada de saúde, educação e segurança, os seus “irmãos” da igreja. Ué, mas não foi Deus que disse para amarmos o próximo como a nós mesmos? E porque essa segmentação, senhor Bispo? No áudio, que seria cômico se não fosse trágico, podemos ouvir algumas pérolas do tipo: "Vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumar nossas igrejas. Se vocês quiserem fazer eventos no Parque Madureira, está aqui o nosso líder, que é o doutor Valmir” ou “Nós estamos fazendo o mutirão da catarata. Contratei 15 mil cirurgias até o final do ano. Então, se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, por favor falem com a Márcia. É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar, e daqui uma semana ou duas eles estão operando”. Porém, meu caro leitor, o discurso do prefeito não funciona para o resto da população. Para milhares de pessoas que aguardam na fila pela cirurgia de catarata (só para citar um exemplo de procedimento médico), a espera pode ser longa. Quando o plano de cirurgias do município que foi lançado em abril, eram para 15 mil pessoas e estas, ainda estão na fila aguardando pela operação.

Bem, passaria laudas declarando meu descontentamento com os rumos políticos, sociais e jurídicos que nosso país vem tomando. E arrisco-me a dizer que esse mar de lama em que estamos inundados não será despoluído em curto prazo. Me resta pedir a Deus (não ao mesmo Deus que esse senhor alega seguir, nem ao que o possível presidente diz cultuar (fora Bolsonaro!), que a população tenha discernimento, e aprenda com todas as besteiras que ajudou a fazer no nosso país, não perpetuar esse lamaçal. É bem simples de fazer sua escolha, se me permite uma humilde opinião: desapegue-se de seus dogmas e pesquise a vida política do seu candidato. Política não se faz com religião, se faz com vontade e honestidade.

Temos quatro anos até a próxima Copa (e espero que o Tite continue como técnico da seleção, pois não há como negar o belo trabalho que ele fez, exceto mantendo o cai-cai Neymar e o Gabriel, que nem Jesus salva) e esse ano temos uma nova eleição. Difícil será identificar se os candidatos a nos governar e nos representar querem jogar no time da população ou se são outros adversários...

Ah, se liga, o Barba Feita agora está no Instagram!
Segue a gente lá:

Leia Também:
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: