quarta-feira, 25 de julho de 2018

E Se Fosse Possível Voltar ao Passado?




Dia desses estava jogando em casa um teste via Facebook, no qual você responde a perguntas, tenta adivinhar as respostas dos outros e vê se os outros acertaram as suas. Numa das questões, uma curiosidade trivial: “Se você pudesse viajar no tempo, para onde você iria?”. Só havia duas respostas possíveis: “Passado” e “Futuro”. E eu demorei um tempinho até me decidir. Acabei optando pelo Passado, por achar que deve ser desesperador ir para o Futuro e acabar descobrindo que, em um intervalo de tempo, não teríamos um ente querido do nosso lado, ou estaríamos num desvio completo dos nossos planejamentos, ou passando alguma necessidade... sei lá.

Passei para as próximas perguntas, mas depois me questionei: “o que eu faria se, de fato, pudesse viajar para o passado?”. Claro, porque ir para tempos pretéritos só vale a pena se for para podermos mudar algo ou redefinir o que já foi escrito. Um professor meu de Ciências dizia que nós nunca poderíamos voltar para o passado pois, se pudéssemos, já teríamos nos deparado com viajantes do futuro entre nós. Faz sentido. Mas, e se...

A primeira coisa que me veio à cabeça foi salvar meu avô materno da morte. Ele partiu relativamente novo, com 66 anos, e sempre foi uma grande referência para mim. Eu me lembro até hoje da cena: ele passando mal, meu tio o abanando e eu, com meus cinco anos de idade, assistindo sem entender. Meu tio berrou comigo para eu ir chamar a minha mãe, correram com ele para o hospital, mas meu avô não resistiu. Tudo culpa de um remédio para o coração que ele não poderia ter tomado, por ter insuficiência respiratória. Erro médico totalmente prevenível. 

Também nesse sentido, teria alertado à minha avó paterna que ela era diabética mais cedo. Ela descobriu de uma das piores formas: com uma ferida que não se curou e gangrenou, em meio a um local onde as condições de saúde e higiene não eram das melhores. Acabou tendo que amputar a perna. Na cidade onde morava, Mogeiro, no interior da Paraíba, caiu em desgosto por todos só a chamarem de “aleijada”. Nunca se recuperou totalmente das conseqüências da amputação e, alguns anos depois, partiu em definitivo.

Teria também salvo ao menos três gatos que eu tive: Catarino, Thomás e Damiana. Os dois primeiros, castrando e não os deixando ir para a rua (de onde não voltaram mais com vida em certo momento). E a Damiana, não a levando no veterinário onde, na cirurgia de castração, ela foi morta. A morte do Catarino foi um dos momentos mais dolorosos da minha vida, pois ele era muito grudado comigo, meu companheiro em diversos momentos, inclusive nas madrugadas de internet discada. Ele foi abandonado pela mãe ainda miudinho no sótão dos meus pais e só sobreviveu porque eu o dei mamadeira (daquelas minúsculas, de recém-nascido). Sempre me recebia na porta de casa quando eu voltava da rua, agarrava na minha perna e ia andando pendurado em mim. Dormia na minha cama praticamente todas as noites.

Damiana, se tivesse se salvado, teria impactado nos animais de estimação que temos hoje em dia. Porque nós só ficamos com dois de seus filhos (Anastácia e Damião – sim, somos pouco criativos...) justamente porque ela morreu. Damião seria dado para adoção, junto com os outros dois irmãos que já haviam tido o mesmo encaminhamento. Difícil escolher entre ela e o Damião. Mas vai que a gente aceitava três gatos também? Ela se foi também por um erro veterinário, numa aplicação excessiva de um anestésico pós-operatório.

Creio que também teria saído do armário mais cedo e me permitido mais. Perto dos meus amigos, demorei um bocado para dar o meu primeiro beijo (aos 17 anos), justamente porque não entendia bem o que se passava comigo e, por isso, repelia a tudo à minha volta. E mesmo após o primeiro beijo, fui extremamente conservador nos poucos anos que tive antes de conhecer o Cristiano, meu companheiro há mais de 13 anos. Quase não saía, quase não conhecia gente, quase não aproveitei os lugares mais badalados da minha adolescência e juventude. Provavelmente teria passado a gostar de comida japonesa mais cedo também... Embora isso não tenha nada a ver com armário.

Claro que daria para dar também aqueles golpes espertos, ver uma Mega-Sena acumulada e jogar os números dela para ficar milionário sozinho. Ou não cair naquelas conversas baratas do seu banco ou do operador de telemarketing... Ou ir a Machu Picchu em outro momento da vida que não numa mega greve de trens que me fez gastar 14 horas e andar quilômetros a pé para fazer uma viagem que seria em 3 horas no máximo. 

Sabemos que não vivemos de "e se...". Aliás, pensar assim é uma das coisas mais terríveis para nossa eterna síndrome de culpa e mania de nos penitenciarmos. Mas uma viagem ao Passado não cairia nada mal...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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