sexta-feira, 13 de julho de 2018

Joguinhos Perigosos





Desde a semana passada, os dias tem sido recheados de assuntos bombásticos:  primeiro foi a desclassificação da seleção brasileira (se bem que nem podemos chamar esse fato de bombástico, já que tudo era bastante previsível, né?), e depois o país voltou a falar sobre política com a “libertação” do ex-presidente Lula através de um habeas corpus concedido por um desembargador do tribunal de segunda instância.  Essa historinha, em pleno horário de almoço de domingo, provocou a ira de Sérgio Moro que, mesmo estando de férias, e sendo o responsável pelo processo na primeira instância, ligou para o relator do caso,  e o mesmo suspendeu a decisão.  O bafafá rolou por horas e, na queda de braço, a decisão da primeira instância sobrepôs a da segunda, fato polêmico (e até então inédito, pelo que saiba) no meio jurídico.

A semana também foi agraciada com o final feliz para a história dos meninos tailandeses que estavam presos dentro de uma caverna.   O mundo todo acompanhou o drama do time de futebol infanto-juvenil e do resgate, quase uma missão impossível e que, certamente, vai virar livro, filme etc e tal.  É esperar pra ver.

Também teve (mais um) mico de Marcelo Crivella, que transformou sua assessora pessoal em meme na internet.  “Fala com a Márcia” viralizou devido a um comentário do bispo-prefeito em uma reunião com líderes religiosos e pastores evangélicos, numa clara alusão de oferecer ajuda e “furar a fila” do sistema de regulação de vagas para cirurgias de catarata.

Mas a paradinha que mais “bombou” no sentido real da coisa foi realmente o tal beijo gay de Nego do Borel.  O cantor, travestido de sua antiga personagem Nega da Borelli, lasca um beijo (muito chinfrim, por sinal) em um modelo no clipe de Me Solta, gravado em uma comunidade tijucana, dividindo opiniões nas redes.

Eu nunca gostei de Nego do Borel.  Posso até admirar a trajetória meteórica do cantor de funk (podemos chamá-lo assim?) alcançou, mas só.  Obviamente já ouvi em algum churrasco ou festinha de aniversário as suas músicas, que esqueci dois minutos depois que terminaram.  Música pop inofensiva e descartável, que não me incomoda em nada.  O que me incomoda é que não sei quem é Nego do Borel.  O que pensa?  Ele é um enigma, um ser incógnito que parece estar interpretando um personagem o tempo inteiro.  Nega da Borelli é um personagem dentro de um personagem e, por isso, se torna ainda mais vazio.  Até atuando (lembro de tê-lo visto em alguma temporada de Malhação) e ainda assim parecia ser... Nego do Borel.

Mas em relação ao vídeo, muitos defenderam o cantor, afirmando que ele representou muito bem os homossexuais.  Outro grupo o acusou de oportunista.  Eu não acho nem uma coisa nem outra.  Aquele personagem (a “Nega”) nunca representaria os homossexuais, pois é nitidamente satírico e estereotipado.  Como bem resumiu o (sempre ótimo) Spartakus Santiago, “a bicha preta afeminada sempre foi motivo de piada.  Se vestir de bicha preta e fazer mais piada ainda não é representatividade e nem empoderamento.  Empoderamento é colocar quem sempre foi silenciado numa situação de poder, de respeito.  Empoderamento é ver Liniker e Linn da Quebrada fazendo turnê pela Europa”, declarou o publicitário.   
   
Justamente por ser algo tão infeliz, não acho que é oportunista.  Não vejo que esse exemplo da piada sem graça seja um motivo para preocupação com a monetização da apropriação da causa LGBT, o tão debatido “pink money”.

Minha única preocupação - ao analisarmos que este terreno tão minado e onde tanta gente ainda morre diariamente por motivos tão babacas movidos pela intolerância - é o jogo perigoso que pode virar segregação a partir dessas piadinhas disfarçadas de atos ingênuos.  

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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