segunda-feira, 9 de julho de 2018

Lacrou!

...Só Que Não!



Lacrou: gíria que corresponde a um elogio para quem foi muito bem em alguma coisa, que deixou os outros sem fala ou sem reação. Quem lacrou não deixou espaço para que falem mal, quer dizer que aquela pessoa "calou a boca" dos outros. Aplicação em frase: "lacrou as inimigas".
Vivemos na era do lacre. E, se você não sabe o que é lacrar, sinto lhe dizer, mas você está out. Mas, convenhamos, não acho que você esteja perdendo muita coisa não. 

Lacrar, para uma nova e contestadora problematizadora geração, é o ápice de uma discussão (normalmente virtual). É botar o ponto final, acabar com os argumentos, destruir o interlocutor. É lacrar e fazer isso de forma a ser aplaudido nas redes por uma legião de outros lacradores desocupados.

A preguiça que me dá com quem que lacrar a qualquer custo é que o diálogo se perde. Normalmente, o que acontece é que alguém pega uma situação fora de contexto, escreve um textão para o Facebook, é curtido e compartilhado e, na maioria das vezes, as pessoas nem sabem direito o que originou realmente o ~~~lacre~~~.

Eu já disse aqui outras vezes que estamos emburrecendo. Com o advento da tecnologia e da modernidade, tivemos a oportunidade de ter acesso a conhecimento ilimitado a apenas um clique. Entretanto, esse conhecimento é líquido e escorre pelos nossos dedos ao ser oferecido indiscriminadamente e em abundância. Isso, aliado ao fato de que no mesmo mar de conhecimento que navegamos também há muita ignorância, criou a geração atual, que é superconectada e, ao mesmo tempo, tremendamente vazia de conhecimento tácito, afinal, tudo que você precisa saber está ali, ao alcance de alguns dígitos no Google.

Até mesmo o surgimento do "lacre" mostra que essa é uma característica das novas e antenadas gerações: a gíria surgiu em 2013, quando a youtuber Romagaga a utilizou pela primeira vez para entaltecer o álbum de Beyoncé lançado na ocasião, ao dizer que a cantora havia "lacrado o cu das inimigas". A partir de então a gíria começou a ser amplamente utilizada, primeiro entre os gays e depois ganhando o mundo e se tornando o símbolo dos debatedores virtuais.

Ser lacradora (sim, a gíria é usada sempre no feminino, não importa o gênero de quem lacra) inspirou até mesmo uma música, desculpem-me o trocadilho, não  lá muito inspirada gravada por Claudia Leitte que, com Maiara & Maraisa acabou levando o termo às grandes massas, mas cuja letra explica bem o conceito de quem quer lacrar.



Agora, com o fim da Copa do Mundo e com os ânimos políticos voltando a serem exaltados, o lacre vai voltar com tudo nas redes. Se tem uma coisa em que direitinhas caviar e esquerdinhas pão com mortadela convergem, é em tentar o lacre a todo custo. Chega a ser engraçado acompanhar a disputa pelo selo Lacrou! de qualidade.

A pena nisso tudo é ver que o lacre existe, mas que ele fica apenas no meio virtual, já que na vida real, onde tudo que realmente importa seria um bom lacre contra a hipocrisia e todos os problemas (e problematização reinante) que nos assolam. Mas, é claro que para isso a grande maioria (e faço aqui um mea culpa ao me incluir nessa) acaba fechando os olhos. Ou melhor, deixando-os em nossos smartphones hipnotizados por uma chuva de lacres virtuais. Haja guarda-chuva!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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