sexta-feira, 27 de julho de 2018

Nosso Jeito Hipster de Ser




Quando eu era adolescente, não existia o termo nerd. Geralmente, aqueles moleques com óculos “fundo de garrafa”, aparelho nos dentes, cheios de espinhas e que só tiravam notas máximas nas matérias mais chatas do colégio eram chamados de CDFs (“crânios-de-ferro”) ou “cus-de-ferro” (que na época não tinha a menor noção que pudesse significar). Só depois entendi que o termo mais vulgar era pelo motivo do aluno nunca faltar à escola e precisar ter “cu-de-ferro” pra aguentar ficar sentado por tanto tempo na mesma posição assistindo aula. Obviamente, isso já era uma forma de bullying, mas pelo que me lembro, os CDFs até gostavam de ser chamados assim. Na minha turma existiam vários deles e que certamente se orgulhavam em ser superiores aos alunos medíocres, como eu.

Quase sempre, os CDFs eram péssimos nas aulas de educação física. Mas eram excelentes em química, física e matemática. E, por esse motivo, deixavam de ser as criaturas isoladas, passando a ser os queridinhos, já que tinham o talento nato para explicar aquelas equações aterradoras com uma didática compreensível.

Eu era um bosta em quase tudo. Detestava as aulas de educação física e, literalmente, um zero à esquerda em fórmulas, tabelas e códigos. Mas era bom em inglês e português. E sabia tudo sobre ciências, como o nome dos planetas do sistema solar, todos seus satélites, distâncias e tempo de órbitas em torno do sol. Talvez eu fosse um nerd antes mesmo da nomenclatura existir.

Depois que a revolução tecnológica surgiu, principalmente com o advento da internet, o CDF deixou de ser usado e assim então surgiu o nerd, de interação social quase nula. O nerd era aquele carinha que conseguia passar de todas as fases do vídeo game, além de conseguir instalar programinhas e joguinhos bacanas no PC. Por causa disso, veio a constatação: eu nunca fui CDF e, tampouco, um nerd. Como já disse, meu boletim era multicolorido e sempre tive dificuldades com tecnologia. Nunca soube sequer reinstalar o Windows quando dava pau.

Do nerd, veio o geek. E minha vida se confundiu ainda mais. Afinal, o que poderia ser, já que o geek era aquele cara ainda mais antenado com os gadgets da vida tecnológica? E depois ainda surgiu o old school, aquele cara preso ao passado que nunca gostou do som do CD pois curtia o chiado do vinil e nunca teria coragem de baixar o Spotify. O old school era aquele típico indivíduo que, ao invés de assistir Sense8 preferia ver Além da Imaginação, ou então As Panteras no lugar de Stranger Things. O old school só ouve bandas anos 60, 70 e 80 (no máximo um grungezinho do início dos 90). E o que não é o meu caso, pois eu também amo as bandas atuais.

E aí chegou o hipster. E tudo passou a fazer mais sentido.

O hipster é aquele cara que vai de tudo o que é contrário ao gosto popular. Gente normal não é hipster. Mas será que os hippies dos anos 70, com aquelas roupas multicoloridas e o movimento flower-power já não eram hipsters, assim como os góticos, os neopsicodélicos e os punks com suas roupas de couro e penteados moicanos? 

O hipster é como o indie, na música. Se você não consegue compreender e encaixar a sonoridade em algum padrão pré estabelecido, é indie. O indie/hipster tem estilo próprio e debate com os melhores amigos por horas sobre uma infinidade de bandas desconhecidas. O hipster pode torcer pra qualquer time, mas não esconde sua paixão pelo XV de Jaú ou o XV de Piracicaba. O hipster ouve Arcade Fire e Radiohead. O hipster Sandman repetidas vezes, coleciona Funko´s, ama Toddynho e camisas diferentonas.

Querem ser iguais, mas no fundo, são singulares. E, pensando bem, aqueles CDFs, nerds, geeks e o old schools sempre foram hipsters.  

Antes tarde do que nunca: sempre fui hipster.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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