sábado, 14 de julho de 2018

O Que Falar Para os Meus Alunos, Quatro Meses Depois?




Escrevi um pouco no meu Facebook algum tempo atrás, ainda com o frescor do sentimento no coração e nos olhos, sobre esse ato que marcou a minha vida. Agora, já se passaram quatro meses. Desculpe, esqueci de falar a qual ato me refiro, talvez porque o coração volte a pulsar mais rápido, a garganta volte a fechar e os olhos fiquem logo marejados, só de lembrar. O dia era 15 de março de 2018 e um motivo levou muitos e muitas às ruas: a execução da quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, Marielle Franco. A minha vereadora. 

Como disse um amigo ao me avisar da execução. “A sua vereadora foi executada agora, você não viu né? Seu celular tá desligado, te avisei lá!” Me metralhou ele, ao chegar em sua casa e me ver sentada no chão conversando com sua mãe, um dia antes do ato que mudaria minha vida. Pensei até que ele estava falando da minha vereadora de Belo Horizonte, já que acompanho a política das duas cidades e, se pudesse, votaria nas duas, cuidaria das duas. Mas não… era da Marielle que ele falava. 

Mas, que drama! Mudaria sua vida por que? É só mais uma morte! 

Ninguém foi louco o suficiente para falar isso para mim, não alguém que me conheça mesmo. Mas deixa eu contar por que mudou minha vida: pela primeira vez nas ruas, nas passeatas, nos atos, eu senti medo. Medo mesmo. E sabe? Não tinha nenhum policial perto. 

Normalmente, estou nas primeiras fileiras ou sempre acompanhando alguém que prometi que daríamos um jeito de sair bem, já vi bomba explodir sem motivo, já bradei com polícia ao meu lado, mas nesse ato não… Ao ver os caixões entrando na Cinelândia, tudo tinha um peso tão grande. Muitas pessoas. Apáticas. Eram tantos sentimentos que não acredito ser capaz de dar nomes a alguns deles. 

Querendo ou não, estávamos em um velório. Duplo. Marielle e Anderson, o motorista que levava a vereadora para casa no dia da sua execução, acabou também sendo assassinado. Duro escrever assim. Sem usar meias palavras, sem usar metáforas ou qualquer coisa que deixe mais leve a situação. Mas não tem como, ela não é. 

Voltando para o dia do ato, todos e todas gritavam por justiça, cantavam e faziam silêncio juntos e, nesses momentos, um pulsar era sentido, sentíamos o nó na garganta do outro, o pesar do coração da outra, nosso olhares se cruzavam e mesmo sem nos conhecermos, tantas coisas eram trocadas e ditas naqueles momentos que as palavras seriam incapazes de descrever como acontecia. E quando encontrávamos um conhecido, o abraço, sempre longo e silencioso, sem o famoso “tudo bem?”, porque era claro que não estava, era reconfortante mas também era cheio de pesar. 

Aí veio a pergunta que deixou todos em um breve silêncio, como que procurando uma resposta, nem precisava ser a correta, só precisava ser, existir. Minha amiga que é professora de história, 12 anos de amizade, minha companheira de luta, vira e pergunta para nós (éramos 4 amigas, todas da época de colégio e todas professoras): “O que vou falar para os meus alunos amanhã? Como seguir acreditando? Como ter esperanças?” Um soco no estômago. O primeiro do ato. 

Tudo até então eram só sensações. Ela verbalizou nosso medo. Como seguir lutando? Será que mudaremos mesmo o mundo? Será que nossas vozes chegarão a algum lugar ou serão sempre executadas? Esperando o caixão sair para depois seguirmos em cortejo até a ALERJ, após um lanche, uma pausa, muitos suspiros e muitos meio sorrisos que eram como flechas de força trocadas entre nós, uma frase veio a minha cabeça “Estão nos matando!” Segundo soco, que bom que o lanche foi leve, o estômago não ia aguentar. 

E não, migus, não é que morreu alguém só agora. Morre gente todo dia. Se você morar na periferia ou for para lá, difícil vai ser encontrar alguém que não tenha tido algum parente assassinado ou vítima da violência. Se for negro, piora. E assim vamos fazendo os recortes. Mas o que estou querendo dizer com “Estão nos matando!” é que agora não fizeram escondido. Não jogaram no valão. Não montaram cena e simularam algo. Não… não se deram ao trabalho. Pelo contrário, se você tiver qualquer coisa na cabeça, percebe que foi um assassinato, uma execução e de quem? De uma pessoa que representava mulheres, negros, LGBT´S, a favela. E mataram sem nem simular um assalto. 

Mataram mais de 46 mil vozes que votaram nela e muitas outras que ela representava. Nesse momento onde passavam milhares de pensamentos, sentimentos, tudo junto em mim, os caixões de Marielle e Anderson saíram da Câmara Municipal. Aceitamos o choro como um velho amigo, que consola, que se faz presente nas horas mais difíceis e nos abraçamos. Um abraço triplo, três amigas, lágrimas, respirações que foram se acalmando e se encontrando, até o ombro virar abrigo e aquela cabeça virar fortaleza. E nesse momento eu achei a resposta pro primeiro soco que levei nesse dia. Que juntas não seríamos caladas. Jamais. Que não podem calar nosso pranto nem nossa luta. Porque luto para gente, é verbo. E melhor que lutar sozinha é lutar acompanhada. Clichê? Adoro quase todos eles, porque eles trazem verdades de uma forma brega. E gosto de ambos, de verdades e de pequenas breguices (essa palavra nem existe no dicionário). 

Depois que nossas respirações se igualaram, vi que nossas forças estavam se renovando; saímos então em cortejo até a Alerj e, entre um canto de justiça e um silêncio cheio de presença, papeis brancos voaram do alto de um dos prédios. Alguém que estava trabalhando, mas que também estava dividindo sua tristeza e sua força. Nos céus se fez poesia. Cena de filme, no momento onde todos estavam mais abalados, bradando por justiça, mesmo com nó na garganta, com lágrimas nos olhos, dançavam no céu pequenos papeis brancos, parecia uma promessa de paz, um oráculo, onde você vai ver o futuro, como quando alguém joga tarô e vira uma carta para você, você olha para ela, não sabe o que ela significa de verdade, mas só de olhar você sabe que é algo bom. 

A raiva e a revolta vieram depois desse torpor inicial. Ainda dói. Ainda é difícil de acreditar. Mas de uma coisa todos e todas podem ter certeza. Nasceu no coração de cada um nesse dia mais um motivo para seguir lutando. Nem entrei em detalhes no que Marielle fez, né? Mas fiz isso porque queria contar tudo que foi não ter mais Marielle em nossas vidas e como foi viver com essa ausência. Nada justifica, mas acaba explicando. Para bom entendedor, nove tiros contam história. 

E é isso que pretendemos fazer. História. Porque nossa voz está mais unida do que nunca. 

Marielle, presente. Hoje e sempre!

Leandro Faria  
Aninha Prado Guisoli é atriz, professora de teatro, diretora e produtora, porque se formar em artes é assumir que pode ser muitas em uma só. Mineiroca da gema é uma sonhadora em tempo integral. Ama animes, desenhos, filmes, livros, HQs, o sol, o calor, a praia, a natureza, além de baladas e um barzinho pra relaxar. Mas tem um ranço enorme de quem fala "coisa de menino e coisa de menina"...
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