sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Verdadeiro Mal do Século





Mesmo depois de 35 anos, a AIDS ainda continua causando preconceito e hostilidade entre as pessoas. Fiquei pensando muito nisso quando, nesta semana, um amigo confidenciou-me ser soropositivo. E o que mais me surpreendeu em seu desabafo não foi o fato dele estar preocupado com o vírus em si, mas sim, em sua aflição pelo diagnóstico ter mudado sua identidade perante às pessoas ao seu redor.

Só conseguia pensar em A Metamorfose, clássico do escritor austro-húngaro Franz Kafka, escrito em 1912, que, de certa maneira, também poderia ser usado na atualidade como uma metáfora para a síndrome. Na obra, é contada a história do caixeiro-viajante Gregor Samsa que, um dia, acorda metamorfoseado em um enorme inseto. E o que mais o incomodava não era o fato de olhar no espelho e descobrir que tinha se transformado em uma barata, mas sim, pelo medo da rejeição que aquela criatura provocaria no seu ambiente de trabalho.

Mesmo escrito há mais de um século, a obra-prima literária de Kafka se repete. A AIDS ainda continua sendo um estigma coletivo, mesmo com todos os avanços no tratamento para os brasileiros que vivem com HIV, que é destacado como exemplo positivo pela Organização Mundial de Saúde. É estarrecedor constatar que as pessoas ainda são condenadas por terem o vírus. A sociedade não age da mesma forma quando vê alguém com câncer ou uma doença crônica como o diabetes. Para muitos desses indivíduos, as doenças “encontram um corpo para atacar”. Mas no caso da AIDS, parece ser o inverso. Na análise de discurso, é como se as pessoas “buscassem a infecção” – numa expressão bastante hipócrita por sinal - mas que precisamos retornar ao passado para poder compreender como tudo isso começou. 

Em 2014, lembro-me de ter ficado bem assustado quando li uma matéria no jornal O Globo, que estava divulgando um panorama da vulnerabilidade da AIDS entre os homens que fazem sexo com outros homens. Na matéria, havia outro desabafo de um jovem de 24 anos que, ao cobrar explicações do seu parceiro ao descobrir em um exame que estava com o HIV recebeu como resposta que “o preço do pecado é a morte”. Ou seja, explicitamente também sempre existiu um vínculo da doença com uma espécie de “castigo divino”. No viés do pré-julgamento religioso, a AIDS seria uma reprovação de um ser superior para a “imoralidade comportamental terrena”, como uma nova versão de Sodoma e Gomorra.

Quando na primeira metade da década de 1980 começaram a aparecer os primeiros casos de AIDS, a síndrome ficou marcada como “câncer gay”. Obviamente, quando ainda não existiam tratamentos eficazes para controlá-la, o indivíduo que contraía o vírus HIV estava com seus dias contados. Além de todo o estigma, ainda havia o grande enfrentamento da superexposição na mídia: astros hollywoodianos, cantores e atores tiveram sua vida devastada quando publicamente declaravam ter a doença. Rock Hudson, um dos maiores galãs do cinema norte americano, foi um dos primeiros a assumir que tinha AIDS. E a lista de perdas inestimáveis crescia em poucos meses como o querido ator Lauro Corona, o astro Freddie Mercury, o filósofo Michel Foucault, o artista plástico Keith Haring, o maior dançarino do século XX, Rudolf Nureyev ,e os cantores Renato Russo e Cazuza, este último, um dos maiores símbolos da luta contra a enfermidade.

Em Ideologia, uma de suas canções mais famosas, Cazuza fazia referência aos heróis de sua adolescência – Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrisson – que haviam morrido de overdose. E espantosamente, o verso “meu prazer agora é risco de vida” já atualizava de forma premonitória que novos heróis também sucumbiriam, desta vez, por uma doença onde o sexo era a principal porta de entrada, causando uma intolerância ainda maior. 

Naquele tempo, eu ainda era um adolescente e o preconceito e a desinformação eram abissais. Muitos achavam que a doença era transmitida pelo ar ou através de beijos e abraços. Então dá pra imaginar como os portadores eram excluídos socialmente. Geralmente morriam isolados, sem nenhuma espécie de afeto, longe dos amigos e parentes. 

Lembro muito bem de um senhor que morava na mesma rua em que vivi toda minha infância – ele foi um dos primeiros que vi definhando pelas complicações imunológicas e cheguei a escrever uma crônica sobre ele no meu primeiro livro, Troco a Bituca Por Duas Jujubas. Por muitas vezes observei vizinhos atravessarem a rua quando o avistavam na mesma calçada, só para não ter que cruzar por ele ou defrontarem-se em seu olhar perdido e resignado. Aquele homem talvez tivesse vergonha de encarar as pessoas por ser tão rejeitado. Ainda é muito viva em minha memória a cena em que certa vez o abracei quando passou por mim e a expressão de perplexidade que ele teve. Talvez tenha sido um impulso gerado por um sentimento de piedade, sei lá. Mas queria que ele compreendesse, de alguma forma, a existência de um lampejo de dignidade e respeito por ele. 

Acredito que minha atitude foi a maior responsável por compreender muitas coisas. Amigos que souberam do meu gesto também me repeliram, achando que eu morreria em poucas semanas, como se tivesse sido contaminado por uma espécie de peste negra ou ebola. E ali, naquele abraço, vi que a AIDS não era um bicho-de-sete-cabeças. De lá pra cá ouvi, ao longo dos anos, a mesma confidência e o mesmo desabafo de tantos outros amigos que não sabiam como lidar com aquele suposto monstro dentro deles. 

Nesse sentido, é como se a AIDS e a metamorfose kafkiana estivessem intrinsecamente interligados. Ao se descobrir um inseto, Gregor perde o seu valor, apesar de continuar sendo o mesmo Gregor. E logo no início do livro a personagem ainda questiona a sua essência: “estarei agora menos sensível?” Logicamente a resposta é “não” e todos com bom senso chegarão à mesma conclusão... Mas vale aqui ficar essa pequena reflexão... Infelizmente as pessoas não são vistas como de fato são, mas por aquilo que aparentam ser. 

E tenho que admitir que nenhuma enfermidade sobrepõe o sentimento egoísta. Este sim, é realmente o grande mal dos séculos.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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