quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poliódio (Ou: Quando o Ódio Acontece)




Estavam os quatro amigos sentados à mesa do bar. Optaram por uma área descoberta, pois Milton, o mais baixinho, de cabelos encaracolados, fumava. E era justamente um cigarro que acendia agora, interpelando Laércio:

- Então, cara. Conta, como é essa história de odiar duas pessoas ao mesmo tempo...

Antes que o perguntado abrisse a boca, o terceiro, Nildo, disparou:

- Eu não acredito nessa coisa, já falo logo. Pra mim, não tem essa de odiar mais de uma pessoa. 

Laércio, finalmente, respondeu, movendo os grossos lábios negros:

- Ué, gente. Como assim? Odeia e ponto. Quem foi que disse que só dá pra odiar uma pessoa ao mesmo tempo?

Nildo voltou à discussão, passeando as mãos pela vasta cabeleira castanha escura:

- Pra mim, é balela. Eu acho que não só não existe essa coisa de odiar duas pessoas ao mesmo tempo como vou além: acredito que só se odeia de verdade uma vez na vida. O resto é raivinha apenas.

Até então calado, Alex se manifestou pela primeira vez:

- Deixa o cara odiar quantas pessoas ele quiser... O que faz diferença pra você se ele odeia a Camile e a Rafaela ao mesmo tempo?
- Não faz diferença. Eu só não acho que é possível.

Laércio tomou a palavra novamente, repousando a mão esquerda sobre a careca raspada:

- Pra mim, é simples. É só você comparar com outros sentimentos. Você não tem amizade por nós três aqui, por exemplo? Não tem carinho pela sua família toda?
- Ah, mas é diferente! - interrompeu Nildo.
- Diferente por quê? - emendou Alex.
- Porque sim! Porque ódio é um sentimento genuíno, único. Todo mundo que odeia muita gente acabou arruinado... vide Hitler, Napoleão, Cleópatra...
- Deixa o cara odiar quem ele quiser... - contemporizou Alex, soltando um risinho em meio as sardas do rosto.

Milton ainda tragava o cigarro. Pegou o copo de cerveja, já quase sem colarinho e refletiu:

- Veja bem, eu não queria criar polêmica quando perguntei. Só queria entender... acho curioso. Porque ódio não é sempre que acontece entre duas pessoas. Ainda mais entre três, ao mesmo tempo. Deve ser muito louco isso.
- Cara, a gente se odeia e pronto. Não precisa encontrar muita explicação. É simplesmente sentir, no fundo do coração. E é algo recíproco. - explicou o amigo que estava na berlinda desde o início.
- Mas quais as diferenças de odiar duas pessoas ou apenas uma? - indagou o fumante.
- Praticamente a mesma coisa. Claro que tem mais desafios, mais estresses, mas também há vantagens. É algo mais intenso. Já imaginou o que é odiar e ser odiado por alguém? Agora imagina isso em dobro?
- Putaria. Pura safadeza... - irrompeu Nildo - Com certeza sempre vai ter um que sobra. E, meu irmão, cuidado pra não ser você... Falo isso pelo seu bem, você sabe.
- Deixa o cara... o bem dele é ele sentir o que ele sente. Ódio não se controla, simplesmente se sente.

O celular de Laércio vibrou. Era mensagem em um grupo de WhatsApp. Pegou o aparelho, leu e mostrou para os amigos:

"Rafaela: Meu odiozinho, espero que esteja tudo mal com você.
Camile: Isso. Esperamos você para a gente se odiar muito hoje ainda. Não demora, hein..."

- Desculpa, pessoal. Mas eu tenho que ir. Concorde ou não, Nildinho, tenho duas mulheres péssimas pra odiar hoje.
- Palhaçada... - respondeu o amigo.
- Olha o recalque. - provocou Milton - Só porque ele não tem ninguém pra odiar há séculos... 

Laércio pegou a mochila e cumprimentou amigo por amigo antes de partir. Os outros três ainda fofocaram mais um pouco antes de pedir a conta e retornarem às suas ordinárias vidas.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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