sexta-feira, 6 de julho de 2018

Rotular, Pra Quê?





No Dia do Orgulho Gay, na semana passada, cheguei a ler em algum lugar que alguns ativistas estavam querendo modificar a sigla LGBTQ+ (que, para mim sempre será LGBT) para deixá-la mais inclusiva. Segundo eles, a nova sigla deveria ser LGBTQQICAPF2K+. Achei uma grande babaquice.

Mas antes de levar as pedradas de algum grupo ativista ou hater, quero deixar bem claro que sempre defendi toda e qualquer mobilidade de inclusão. Os movimentos sociais são importantíssimos e essenciais para que tenhamos uma sociedade mais justa, extensiva e irrestrita. Entretanto, ao que me parece, estes locais de interlocução estão recheados por grandes disputas de poder. Os mapas de produção de sentidos podem revelar isso mais claramente: há sim, uma grande egolatria.

Antes mesmo da sigla LGBT, havia o GLS, que ao que indica se tornou jurássico. Gays, lésbicas e simpatizantes são coisas do século passado. Agora são “lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queers, questionadores (héin?), intersexuais, curiosos, assexuais, agêneros, aliados (quê?), pansexuais, polissexuais, amigos e familiares (hã?), “dois espíritos” (oooi?), kinks (héin?) e o sinal de mais, no fim, inclui tudo o que não for heterossexual.

Até a própria comunidade LGBT (ou LGBTQ+) reagiu de maneira negativa e já estão até dizendo que as lésbicas, gays e bissexuais vão se tornar dissidentes do movimento, pois acham improdutivo a criação de um alfabeto para as novas representações.

Obviamente fui googlar pra poder entender um montão de siglas que não tinha nem ideia do que poderiam significar. Entendi alguns e outros desisti de compreender. Nessas pesquisas, descobri que os questionadores são aqueles que ainda estão na dúvida sobre uma identidade específica, ou não sabem onde se encaixar (que é bem diferente também dos não-binários, que estão mais relacionados com o item intersexuais ou os queers, que mesmo sem uma tradução específica, estão relacionadas a pessoas que não seguem o modelo heterossexual ou de gênero). Já os aliados, são na verdade os antigos “S” dos simpatizantes, que são os héteros não homofóbicos. Os amigos e familiares são... os amigos e familiares... pai, mãe, irmãos, avós... (não riam!). O 2 aí no meio desse código todo é o tal do two spirit – termo originado de tribos indígenas norte-americanas – de pessoas que se vestem e desempenham atribuições sociais dos dois gêneros. E kinks, sabe-se lá o que isso possa significar, são pessoas que se “excitam sexualmente com formas, objetos ou artefatos incomuns”... tipo, um cara querer transar com uma cadeira ou ter um fetiche por botas. Será então que o personagem de Jason Biggs em American Pie pode ser considerado um kink por causa daquela clássica cena em que ele “come” uma torta de maçã?

O fato é que, na minha opinião, toda essa discussão, que certamente dá muito pano pra manga, é muito cansativa. O fato de cada um querer colocar sua letrinha ali para definir uma orientação, opção, gosto ou comportamento é um tanto quanto preconceituosa também. Será que realmente precisamos rotular? É realmente prático? Leva a algum lugar?

Outro dia ouvi de um amigo que se considerava abrossexual. Óbvio que não compreendi nadica de nada com a tal definição. Ele me explicou que os abros podem ser mutáveis em relação às suas preferências e orientações sexuais. Ele pode ser gay em um período e depois ser bi ou até mesmo pansexual. E em determinados momentos, também pode se tornar assexual. 

Independentemente do que todas essas siglas e prefixos possam confundir a nossa cabeça, ainda acho que tudo poderia ser muito mais simples se pudéssemos nos desrotular. O que importa e, principalmente, pra quem importa isso tudo? Acredito que todo esse alfabeto de letras, símbolos e números que só tendem a crescer, poderia ser resumido em um único ícone. Que poderia ser um coraçãozinho igual aqueles do WhatsApp. Um coraçãozinho que bate e que nos lembra o tempo todo que somos... HUMANOS. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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