terça-feira, 24 de julho de 2018

Toda Nude(s) Continua Sendo Castigada




Em Toda Nudez Será Castigada, peça escrita por Nelson Rodrigues em 1965, o autor, que eu particularmente sou mega fã, opta pela narrativa dos fatos sob a ótica de um de seus personagens (a prostituta Geni), do mesmo modo que utiliza esses recursos em textos como Vestido de Noiva e Bonitinha, Mas Ordinária. Isso equivale a dizer que o que vemos em cena (já assisti algumas montagens, inclusive) nunca será a verdade dos fatos, mas o ponto de vista de uma personagem de acordo com as circunstâncias em que se encontra no momento da narrativa.

Ora, mas porque esse preâmbulo? Porque hoje eu gostaria de falar de um tema que para uns soa polêmico, para outros natural, para outros proibido: as famosas nudes.

Como antes de ser colunista, era leitor (ops, continuo sendo!) daqui do Barba, é importante frisar que esse texto nada tem a ver com o icônico Manda Nudes, de 28/04/2016, do Glauco Damasceno (um dos meus antecessores aqui das terças-feiras), e tampouco com o Troca-Troca: E Você, Manda Nudes?, de 16/09/2017 – onde os Barbas se reuniram e deram suas opiniões sobre o assunto.

O trocadilho no título do texto, inspirado na peça do Nelson e parte da descrição de sua intenção que escrevo no primeiro parágrafo, é que me inspiram: gosto de ficar nu e ver o nu dos outros. E fotografar também. Já parafraseando a mim mesmo, o ponto de vista da imagem desnuda está de acordo com as circunstâncias em que se encontra no momento em que ela foi concebida. E eu não vejo a nudez (sim, com “Z”) como algo necessariamente sexual (juro!). Um pinto mole envolto de pêlos, uma bunda redonda (masculina ou feminina), seios de rosáceas aréolas me chamam atenção mais pelo desenho do corpo, como se fosse uma obra de arte a ser contemplada. E essas imagens não atiçam minha ereção, tal qual uma cena de sexo, ou mesmo estímulos auditivos do ato sexual. Vejo a nudez como algo puro, primitivo. E hoje sou “castigado” por isso. Trabalhar num ambiente extremamente formal, com posição de liderança, me limita a defender certas convicções. Principalmente de forma visual. A popularização das nudes (só achei tradução para essa expressão hodierna no dicionário informal), colocaram tudo no mesmo balaio. 

Se eu posto uma foto nu, imediatamente sou julgado por estar querendo atrair olhares, curtidas e comentários (já que meus próximos me intitulam de leonino nato - e sofro com esse preconceito das características astrológicas por ser exibido também). Mas não é por isso. Creia! É porque acho belo. E nem um pouco apelativo ou erotizado dependendo do contexto da fotografia. O fato é que com a popularização das nudes, “a nudez está sendo castigada”. E quem a admira também. As imagens viralizam pelas redes sociais e aplicativos de comunicação e, como num passe de mágica, você está em vários lugares ao mesmo tempo, com sua genitália ou suas nádegas expostas e sob alvo de discussão e análises julgadoras. 

Mas, caramba! Não nascemos nus? Os indígenas convivem nus, entre velhos, adultos e crianças e não necessariamente vivem sob um olhar sexual, pedófilo ou imoral. Essa é a nossa natureza. Quando escrevi um dos meus primeiros textos aqui e usei a expressão “Chaaaaato”, fiquei estigmatizado e alguns amigos até hoje me chamam (ainda) de “coxinha”, mas o que eu queria levantar naquela discussão era exatamente o “não-poder-fazer-nada-hoje-em-dia-para-não-ser-julgado-como-politicamente-incorreto”.

Na ocasião de publicação do texto, Toda Nudez foi definida pelo próprio autor como uma história que fala da hipocrisia das famílias tradicionais. Isso em 1965. Acreditava-se que os tempos modernos nos idos anos 2000, essa concepção de hipocrisia poderia estar diferente, caducada. Eis que no ano passado uma nova polêmica envolvendo nudez tomou conta das redes sociais e demais meios de comunicação: um vídeo que viralizou mostrando quando uma criança de aproximadamente quatro anos toca no pé de um homem durante a performance do artista, deitado nu como uma escultura, durante uma exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo.

Na época, o desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça de SP, declarou que “chamar qualquer episódio mais insinuante de ‘pedofilia’ virou uma histeria coletiva”. Assim como tantos outros comportamentos que viram uma tendência julgadora para mascararmos nossas próprias deformidades psicológicas (complemento meu).

Conhecer seus mais íntimos desejos, traumas e iniquidades para trabalhá-los em suas deficiências é a melhor forma de exorcizá-los. Assim como conhecer o próprio corpo como uma fonte de sabedoria e beleza, e não o vincular a um mero objeto de prazer.

Em entrevista, na época do episódio polêmico da exposição de arte, o nosso prefeito da cidade do Rio de Janeiro (Fora, Crivella!) foi à público para declarar, como defensor da moral e dos bons costumes, que o povo do Rio de Janeiro não queria aquela pornografia em nossa cidade. Atualmente, este mesmo senhor, com menos de dois anos de mandato, já possui inúmeros processos investigativos de sua atuação política claramente corrupta, pautada numa gestão falida e tão hipócrita quanto a descrição de Nelson em 1965. Mas esse é só um exemplo em meio a tantos casos de nossa sociedade mascarada, que deixo para uma próxima história.

Enquanto isso, as pessoas continuam achando que a minha nudez (ou nudes, como queiram) que é pornográfica...

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Unknown disse...

A nudez incomoda a hipocrisia humana.
Nascemos nus, o pecaminoso está cravado nas más intenções alheias do ser.
O corpo é a verdaira obra de arte da criação divina.

Sebastiao Thauzs disse...

A nudez e natural. O que a desnaturalizou foi o olhar religioso, associando não só o corpo,como também o sexo ao pecado. Em sociedades onde a igreja não se adirmou, como algumas tribos indígenas, o nu e natura, como deveria ser. Penso no nu por gostar, naquele que chamamos de nu artístico. O nudes é uma apropriação com caráter sexual, o mesmo corpo com propostas diferentes. E salve Nelson que já sacava a hipocrisia social há tempos e transformou isso em artes,com.nu!