quarta-feira, 4 de julho de 2018

Um Pouco de Pão e Circo





Acho que já falei isso aqui no Barba Feita antes: sou um alucinado por Copa do Mundo. Desde 1994, a primeira que eu acompanhei, não perco uma e assisto a todos os jogos possíveis, não somente os do Brasil. Na Copa de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, estava de férias esperando a faculdade começar e via todas as partidas de madrugada (colocava despertador para acordar e compensava o sono de manhã). Sei onde todas as edições aconteceram desde 1930 e todas as finais disputadas até hoje, além de diversas curiosidades da história do torneio. Uma das maiores realizações da minha vida foi ter trabalhado dentro do Maracanã na Copa de 2014 e ter acompanhado ao vivo alguns dos principais jogos da competição – inclusive a final entre Alemanha e Argentina, com direito a gol na prorrogação.

Como jornalista e assessor de imprensa, uma das primeiras coisas que faço quando acordo é ler as notícias do dia e ver as capas dos principais jornais do país. Após a vitória da seleção brasileira sobre o México, as primeiras páginas estavam com um alto astral, com manchetes positivas, fotos alegres e frases efusivas. Não me lembro da última vez que vi o noticiário assim... Talvez durante as Olimpíadas em 2016. Temos vivido anos muito difíceis no país, no mundo e na imprensa. Lidar com notícias ruins tem sido a rotina do jornalismo brasileiro. Como dizia o americano Walter Lippman: “Jornalismo é a arte de separar o joio do trigo e publicar o joio”. Mas de vez em quando (ainda mais ultimamente), a gente quer o trigo. O mesmo trigo que faz o pão, do tão difundido “pão e circo” desde as mais priscas eras romanas.

Sim, às vezes precisamos um pouco de pão e circo. Posso soar vazio com essa declaração, mas tem horas que esse é o refúgio que procuramos para sair dessa realidade tão cruel e pesada. Claro, não é para ser a política de sempre, não é para vivermos nessa enganação. Mas descansar a cabeça e acreditar que algo pode dar certo, ainda que no futebol, é uma lufada de ar fresco nessa poluição de notícias ruins.

Ainda que timidamente, é possível ver ruas enfeitadas para a Copa. Algum patriotismo surge, à medida que a seleção avança na competição, com bandeirinhas nas janelas das casas e dos carros. Na segunda-feira vim trabalhar e a cidade parecia estar em um feriado: ruas vazias, lojas fechadas. Estabelecimentos como bares e restaurantes com TV estavam lotados, uma galera com camisas do Brasil (seja verde, amarela ou azul). O hino cantado nos estádios como se estivéssemos em casa, com a torcida concluindo a primeira parte à capela mesmo após a execução da FIFA acabar... Existe um quê de resgate de um combalido ufanismo. Existe um momento em que deixamos o Fla-Flu político de “coxinhas e petralhas” de lado. Existe um instante em que até quem não entende nada de futebol para o que está fazendo para ver aqueles 11 jogadores defender não somente um título, mas uma vontade de milhões.

Futebol não vai resolver nem esconder nada de mazelas do nosso país. Grandes potências do futebol mundial são países bem desenvolvidos, como Alemanha, Itália, Inglaterra, França e Espanha. Uma coisa não compete com a outra. Uma Copa do Mundo não pode vendar nossos olhos para os nossos problemas; nem os nossos problemas podem tirar o brilho de uma competição como essa, para aqueles que gostam (como eu). Mas que ao menos, por instantes, ainda que apenas por 32 dias, nos dê um pouco do seu pão e circo. Nem que seja pra nossa sanidade mental...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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