terça-feira, 3 de julho de 2018

Uma Ode à Carioquice





Um dia desses, até pouco comum na minha rotina, estava eu, na praia, sentado na minha cadeira, pé na areia, ouvindo o barulhinho das ondas, oscilando com aquele som maneiro no Spotify, observando os ambulantes ensandecidos vendendo seus espetinhos de camarão, bixxxcoito GLOBO e o maravilhoso e famoso MATE de galão, único no Rio (e no mundo, eu acho), pensei: pow, como eu amo ser carioca, mermão! Acho que isso vale uma historinha... E assim, surgiu o texto de hoje.

Escrever sobre cariocas, sem citar seu modo de falar, é como comer pão quentinho sem manteiga derretendo: até rola, mas não tem o mesmo goxxxto. O sotaque dos cariocas é conhecido no Brasil inteiro, de longa data. E (principalmente) paulistas tem a aquela mania de falar mal e acharem que falam o português mais correto do Brasil (ok, ok, nós cariocas também falamos mal dos paulistanos, mas essa rixa boba que eu acho que nunca vai acabar tinha que estar presente neste texto!). 

Claro que eu tenho que concordar que o “Tu tá de brincadeira comigo”, “Tu vai ali, tu fez isso aqui” ou “tô bolado, cumpadi” soam meio engraçado, meio errado, mas confesso que ouvir o “s” com som de “x” é muito goxxtoso e super me orgulho de falar com sotaque carioca beeeeem carregado quando estou em outros estados.

Mas, como Barba Feita também é cultura, vamos à uma breve explicação hixxxtórica: o sotaque carioca, mais particularmente o “s”chiado ao final da sílaba, é uma herança direta do português de Lisboa, já que a corte portuguesa veio em grande contingente para o Rio de Janeiro, em 1808, e a cidade se tornou capital da República em 1889. Aí, brow, o som do s ficou, então, prestigiado por ser o sotaque da realeza, e por isso muito difundido na então capital. Além do s, o fonema r mais sussurrado também é bem característico da forma de falar do carioca. Em vez de “porrrta” como os paulistas, eles dizem “porta”. Outra coisa interessante sobre o falar carioca é que eles adoram um aumentativo: boladão, felizona, malzão… Curiosão, não?!

Sotaques à parte, no Rio de Janeiro a camaradagem também é algo que parece refletir no “carioquês”. Chamar o próximo de irmão, brother e “mermão” diz muito sobre a vibe da cidade. Cariocas não marcam encontro, simplesmente se encontram. E para isso, não tem tempo nem hora marcada. Até porque, marcar hora com carioca é o mesmo que dizer “lá pelas tantas horas”. Cariocas se encontram o tempo todo porque vivem e gostam de estar na rua, com gente. Conhecem alguém agora e em poucas horas são amigos inseparáveis. Compartilham segredos na areia da praia, entre um mergulho e outro e, se bobear, nunca mais se encontram. Isso acontece porque o carioca é espontâneo, natural, meio ingênuo, sem perder o ar de malandro. Cariocas não marcam encontro em casa. Eles te convidam para rua. Afinal, é na rua que o carioca é carioca de verdade. São capazes de ir à praia e a um evento à noite calçando as mesmas Havaianas e ainda identificarem alguma sofisticação nisso. Como disse o Ancelmo Gois em sua coluna n'O Globo: “carioca é se permitir”.

No dia do aniversário de 450 anos do Rio, o então prefeito Eduardo Paes oficializou em decreto a Carioquice como Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio. Está lá descrito no documento: 
“um estado mental, espiritual, corpóreo, gestual e linguístico; a afirmação desta sociedade sobre este território, buscando valores de justiça, igualdade, fraternidade, liberdade, mas sobretudo temperada pela felicidade e pela alegria.”
Portanto, mermão, ser carioca define a sua naturalidade, enquanto a carioquice define a sua natureza. Um lugar que se expressa num jeito de ser e que a vida inteira flertou com a música, o cinema, a arte, a fotografia. Uma cidade que foi cultuada, exibida, aplaudida, admirada, ferida, mas segue até hoje incompreendida.

Em algum momento no meio desse caminho, a história do que fomos e o que dizemos ser foi despedaçada e o Rio passou a conviver de forma permissiva com tudo aquilo que maltrata nosso orgulho, ameaça a sua beleza, diminui o encantamento e nos faz carrascos das nossas próprias pretensões. Porque é difícil acreditar que o sujeito que aplaude o pôr-do-sol é o mesmo que faz xixi na rua no carnaval ou que a garota que passa cheia de suingue a caminho do mar é a mesma que depois vai embora e deixa o lixo na praia.

Aí me pergunto, brow: será que nós vivemos num mundo tão narciso de nossa condição de sermos cariocas e por isso fomos deixando de enxergar a cidade para enxergar somente a nós mesmos? Por que postamos fotos lindas e cheias de hashtags para todo mundo ver mas na vida real lidamos com a cidade como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade com ela?

Pensando em tudo isso, olho para o pôr-do-sol, sentado na Pedra do Arpoador, e antes de iniciar as tradicionais palmas, ouço o barulhinho das ondas, oscilando com aquele som maneiro no Spotify, cantarolo a letra de Ser Carioca, canção de Fernando César, imortalizada na voz de Dalva de Oliveira:

“Rio que és de janeiro a vida inteira 
Não há ninguém que não te queira
És capital do bem-querer
Rio, Rio de sol, Rio sem frio
Olha, meu Rio, eu desconfio
Igual a ti não há nem pode haver...”

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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