quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A Casa Dos Budas Ditosos e Um Convite à Uma Viagem de Luxúria





Se tem uma coisa que gosto de fazer é rever filmes e reler livros. Acho que isso sempre ajuda a perceber o quanto mudamos como pessoa. É claro que no meio disso tudo também existem os "favoritos da vida" - aquele tipo de livro e filme que vamos ter um carinho especial pra sempre, mas que no fundo são só um lembrete de determinada época que vivemos e não vai mais voltar. Não. Nesse caso falo de uma obra que me marcou e sempre tive certa curiosidade de reler, até para entender se continua tão espetacular quanto em minha primeira aventura por suas páginas.

Aos 14 anos, por exemplo, um livro mudou minha forma de encarar os desejos. Lembro até hoje o impacto que A Casa dos Budas Ditosos teve em mim, na forma com que já podava certas vontades que começavam a brotar em meu peito. A obra de João Ubaldo Ribeiro foi como um sopro de liberdade em minha mente e veio quando menos esperava e mais precisava. Esse tipo de encontro parece um capricho do destino para brincar com a gente...

Afinal, o que é Luxúria para alguém que ainda não sabe o que é ser gay? Eu sabia dos desejos que começava a sentir, mas era uma época em que não existia nem espaço para pensar em ser diferente. Gay, Bi, Lésbica... Ser o estranho da turma era colocar uma placa no pescoço e virar o alvo de todo tipo de bullying, ser chacota. Mas quando estava iniciado o processo de podar todo e qualquer desejo, o universo me presenteou com essa liberdade em forma de experiência de vida... Uma mulher que conseguiu ser como queria e não se permitiu esconder, mesmo vivendo em uma sociedade hipócrita de todas as maneiras.

Caso você nunca tenha tido um contato com essa obra de um dos mais premiados autores nacionais, vou apresentar a história, ou o que dela sabemos, para você... No início do livro, o autor João Ubaldo Ribeiro avisa que o conteúdo das páginas seguintes chegou até ele de uma forma anônima. Elas foram narradas por uma mulher, que não quis se identificar, mas que ao longo de algumas fitas (afinal era 1999, e naquela época ainda usávamos gravador de fita k7, sim) contava toda sua vida sexual no interior da Bahia, passando por Los Angeles e Rio de Janeiro... Uma vida sexual e tanto... Claro que essa saída de "ter recebido" o material de alguém adotada pelo autor é ótima, mas ajuda a deixar no ar que essa mulher possa sim ter existido de verdade e não ser só uma criação da cabeça de João Ubaldo.

O livro ganhou uma versão para teatro com Fernanda Torres sendo essa narradora e falando com um sotaque daqueles, do melhor estilo. E ao longo de algumas horas, sozinha em cena, ela vai narrando todos os causos que estão nas páginas de A Casa dos Budas Ditosos.

A obra nasceu do pecado da Lúxuria, dentro do projeto Plenos Pecados, quando a editora Objetiva convidou alguns autores para escrever uma reflexão sobre alguns pecados que fascinam e aprisionam o homem. João Ubaldo foi um dos presenteados e nos presenteaou com essa análise mais que perfeita do homem que possui um medo descomunal de se entregar ao prazer e ser julgado por isso. Afinal, somos todos hipócritas em algum nível, não é mesmo?

Hoje, aos 32 anos e chegando aos 33, me sinto completo. Reler o livro foi excitante na mesma dose que da primeira vez. O que mudou foi ter me identificado com muita coisa ali descrita, desta vez, por ter feito e não mais desejar fazer... Dos 14 para os 32 anos, posso dizer que me vi bem livre de vários dogmas que tinha antes. E permiti minha vida de seguir o fluxo sem julgamentos e aprisionamento. Esse foi o melhor presente que poderia ter recebido.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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