sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A Coisa





Tem gente que diz que não se pode escrever o nome dele nas redes sociais, pois dizem que o algoritmo do Facebook dá mais visibilidade a ele.   E também tem gente que, para evitar pronunciar o nome do diabo, o substitui por outros sinônimos como cramulhão, coisa ruim, chifrudo e cão. 

Em 1988, um filme de humor negro dirigido por Tim Burton e estrelado por Alec Baldwin, Geena Davis, Winona Ryder e Michael Keaton chamado Os Fantasmas Se Divertem revelava um monstro charlatão que surgia depois que pronunciavam o seu nome três vezes, assim como a velha história da invocação dos demônios nos filmes de terror.  Outro filme, Gremlins, de 1984, produzido por Steven Spielberg, mostrava monstrinhos endiabrados que se autoprocriavam se o dono do animalzinho aparentemente inofensivo não respeitasse certas regras.  A palavra Gremlin vem do inglês antigo grëmian, significa “irritar”, “criar confusão” ou “incomodar”.  Se eles fossem alimentados após a meia-noite ou caíssem dentro da água, se multiplicavam.  E com sua inteligência, sabotavam e aterrorizavam uma cidade inteira.  

Essa semana, após o debate do candidato à Presidência da República no Jornal Nacional,  as redes sociais foram bombardeadas com as declarações conservadoras, machistas e misóginas do dito cujo.  E naquele momento bateu aquele medinho novamente.  Pronuncio ou não o nome da criatura inominável?  Jogo água?  E, curiosamente, lendo na minha timeline um texto publicado por um amigo, fui convencido que sim, devemos pronunciar o seu nome quantas vezes for necessário.  Ele não é inominável.   “Inominável é o silêncio alienante dos que têm medo”, ele disse.

Então, voltando àquela entrevista ao JN, vejo o quanto foi um circo de horrores.  E acreditem: ainda pode piorar.  Nos pontos mais polêmicos, destaco aqui alguns...  Obviamente a jornalista Renata Vasconcellos não ganha o mesmo salário de William Bonner, com anos luz à frente da casa e ainda acumulando as funções de âncora e editor-chefe.  Seu salário certamente é proporcional à sua responsabilidade e isso não tem nada a ver com gênero.  Alguém poderia utilizar o mesmo exemplo em outro telejornal da mesma emissora: Sandra Annemberg, há mais de duas décadas na bancada do Jornal Hoje, certamente recebe mais do que Dony De Nuccio, com pouco mais de um ano como apresentador.  Por isso não tem nada a ver com a relação de gêneros diferentes.

O livro que o pateta tentou mostrar no ar, dizendo que era o tal “kit-gay” (alguém ainda aguenta essa história imbecil?) é uma obra chamada Aparelho Sexual e Cia, um livro suíço sem nenhuma temática LGBT, comercializado no mundo inteiro e que foi publicado no Brasil pelo selo jovem da Cia. das Letras (e está fora de catálogo).  A obra JAMAIS foi comprada pelo Ministério da Educação (que inclusive já emitiu nota oficial em 2016) ou distribuído nas escolas públicas.  Inclusive circula na internet um print de uma suposta ilustração que estaria neste livro:  um desenho de dois jovens rapazes fazendo sexo, o que, obviamente, é uma grande mentira.   Quem quiser adquirir o livro para checar, é só fazer uma garimpada em sebos ou sites especializados.   Uma pena que nem Bonner, nem Renata conheciam a obra para que pudessem contestá-lo ao vivo.

Fake news fazem parte de sua propaganda para atiçar ainda mais o ódio social com base em preceitos religiosos e de “preservação da família”.   Bolsonaro inventou ali, no ar o tal 9º Seminário LGBT Infantil.  Isso nunca aconteceu, de fato.  O que existiu foi o IX Seminário LGBT no Congresso Nacional, cujo tema era “infância e sexualidade”.   Este ano, por exemplo, o mesmo Seminário (já em sua 15ª edição), tratou de temas como “justiça inclusiva, envelhecimento e acesso à saúde”.  Portanto, o tema da sexualidade na infância foi apenas um dos debates realizados no seminário.  Provavelmente o candidato nunca deve ter participado de algum evento deste nível e não deve compreender a diferença entre um congresso, seminário ou um colóquio e que é um dever deles abrir discussões com a sociedade civil, criar políticas públicas e produzir leis para que os direitos da população sejam garantidos.  Vale ressaltar, neste ponto, que por mais de 27 anos Bolsonaro e sua família vivem da política.  O deputado só aprovou dois projetos durante todo esse tempo, o que reflete a falta de qualidade dos mesmos e até sua ineficiência com a bancada conservadora da Câmara.  E esses dois projetos aprovados não tem ligação alguma com o que ele mais defende, que são pautas ligadas aos militares e à segurança pública:  um foi uma lei que estende o benefício da isenção do IPI para produtos de informática e outro sobre a liberação do uso da fosfoetanolamina sintética, a pílula do câncer, que ainda gera controvérsias científicas quanto sua eficácia.

O cara quer ser presidente, mas seus projetos de lei tem propostas inexpressivas que vão desde a proibição de bebidas alcoólicas em aviões; o uso de palmas (isso mesmo) em forma de homenagem após a execução do hino nacional; a criação do Dia do Detetive Profissional; a inclusão do roubo de carros como crime hediondo até a proibição do uso de palavras em inglês na identificação de estabelecimentos comerciais.  Também há as polêmicas sobre o fim da demarcação administrativa das terras indígenas Yanomami na região norte e a extinção do nome social para travestis e transexuais em instituições de ensino e em boletins de ocorrências.

Só pra lembrar mais um pouco, o deputado votou a favor da proposta de emenda constitucional que congelou os gastos públicos com saúde e educação por 20 anos, o que compromete diretamente vários programas sociais, prejudica o atendimento dos serviços públicos (já estamos sofrendo com isso há pelo menos dois anos) e condena uma geração inteira, atingindo diretamente os mais pobres, que dependem do SUS.  Bolsonaro também votou contra os trabalhadores nas duas sessões sobre reforma trabalhista; defende o uso de armamento à população, classifica os sem-terra como terroristas; vincula a profilaxia da gravidez para vítimas de estupro como “legalização do aborto” e, entre outras barbaridades, reverencia torturadores como o Coronel Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, durante o período ditatorial.   

Beetlejuice, Beetlejuice, Beetlej..., ops Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro! Água nele, pois Bolsonaro é um Gremlin-Beetejuice, mas que pode desaparecer se jogarmos uma luz forte.  Luz.  Conhecimento.

Semana que vem tem mais, enquanto a democracia me deixar abrir a boca.


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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Ando meio confusa com tanta confusão...mas não podemos perder a coerência. Beijos no coração!