quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Sofrida e Brilhante Isaura Garcia




Vocês conhecem Isaura Garcia? Pois bem, admito que não conhecia NADA sobre ela. E fui convidado para assistir a uma peça sobre a sua vida e carreira no teatro Oi Casa Grande na última sexta-feira. O espetáculo tem no elenco duas brilhantes e renomadas atrizes de musicais: Kiara Sasso e Soraya Ravenle; e outra atriz decana da TV brasileira, mas muito fadada a trabalhos coadjuvantes: Rosamaria Murtinho. As três dão vida à homenageada em fases diferentes da vida e, ainda assim, contracenam em alguns momentos – nos quais a “Isaurinha” mais madura dialoga com as suas versões mais jovens e aprendizes da vida. 

Para quem não conhecia a sua história, durante o musical fica evidente que Isaura Garcia era uma mulher à frente de seu tempo. Vinda de uma família humilde do Brás, ela falava palavrões como se fossem conjunções. Foi descoberta para a música em um programa de calouros da Rádio Record aos 14 anos e teve que enfrentar o pai violento e machista, que batia em sua boca para que ela não pudesse cantar. A “Personalíssima”, como era chamada, tornou-se uma das grandes divas do rádio, na transição da Era de Ouro para a chegada da Bossa Nova e da Jovem Guarda. Casou-se de fato com um homem quase dez anos mais novo, o organista Walter Wanderley – também violento e machista – que alcançou fama internacional na época da Bossa Nova. Aliás, violência e machismo foi algo que não faltou em sua vida.

Depois de ver o espetáculo, assisti a uma entrevista que Isaurinha concedeu a Jô Soares em 1992, quando ele ainda estava no SBT e quando o Sexteto ainda era Quinteto. Ela mesma reconhecia que era moderna demais para o período em que viveu e relatou todas as violências que sofreu com Wanderley, numa época em que a submissão feminina não só era aceita como era cobrada. Se hoje em dia é difícil, às vezes, falar em machismo com pessoas do anonimato, imagine de um cara que se tornou um ícone musical no Brasil e nos EUA? Não teve uma vida fácil essa Isaurinha... 

Kiara Sasso e Soraya Ravenle estão maravilhosas. A entrada da Soraya, então, que marca a mudança de atos (e dá o intervalo) é sensacional. Mas uma das coisas mais graciosas é ver a vitalidade de Rosamaria Murtinho que, aos 83 anos, desliza pelo palco com o texto decorado com uma habilidade impressionante. Ajoelha e levanta como uma garota de 20 anos. Canta, com todas as suas limitações vocais, e conduz a narrativa da peça com o olhar da Isaurinha já no ocaso da vida. Rosamaria já estrelou outra peça sobre Isaura Garcia antes, em 2003, na qual, inclusive, ficou mais evidente a vida sofrida da artista. A peça de agora prefere ser uma homenagem ao brilho já esquecido (vide que eu mesmo não a conhecia...) de sua carreira. 

O principal ponto negativo da peça, para mim, é a duração: extremamente longa, sem necessidade. Chega a 2h30min, com um intervalo de 10 minutos. Há vários pontos que poderiam ser enxugados, até para torná-la mais dinâmica. Eu não tenho problema algum com peças e filmes longos, contanto que nem sintamos o tempo passar e não fiquemos olhando o relógio – o que não foi o caso aqui. 

Além de Rosamaria Murtinho, Soraya Ravenle e Kiara Sasso, completam o elenco: Leonardo Brício, Iano Salomão, Lázaro Menezes, Flávio Rocha, Alessandro Faleiro, Flávia de Santa Maria, Anna Paula Borges, Samuel Melo, Renan Duran, Juliana Rockstroh, Pedro Barroso, Tai Ravelli, Bibi Cavalcante, Sidney Navarro, Paulo Giardini e orquestra. A montagem tem Klebber Toledo como diretor artístico e produtor do espetáculo. O ator e o sócio Rick Garcia, neto de Isaurinha, estão por trás do projeto, com Jacqueline Laurence na direção geral. 

SERVIÇO:

Isaura Garcia – O Musical
Local: Teatro Oi Casa Grande, Av. Afrânio de Melo Franco 290 A, Leblon 
Temporada: de 26 de julho a 14 de outubro 
Dias e horários: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, às 20h; sábado, às 17h30 e às 21h; domingo, às 18h 
Preços: de R$ 50 (inteira) a R$ 150 (inteira) 
Vendas: bilheteria do teatro e pelo site Tudus  
Classificação etária: 12 anos

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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