sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Ainda Dá Pra Ser Otimista?




Sempre fui um otimista de carteirinha.  Vivi aquelas tenebrosas épocas de hiperinflação totalmente fora do controle.  Lembro que naquele período a inflação chegou a ultrapassar 80% ao mês (é... não era ao ano não... era ao mês mesmo).  Nos supermercados, o que você comprava pela manhã tinha um valor reajustado à tarde, assim como as contas bancárias.  De um dia para o outro, o dinheiro dos brasileiros perdia o valor.  Inventaram o tal congelamento dos preços e o que se viu foi o caos.  Produtos desapareceram e havia racionamento de produtos básicos.  Mas sempre acreditei que as coisas melhorariam.

Minha mãe me acordava às seis da manhã e íamos para o mercadinho do bairro, com meus irmãos reclamando de sono, para comprar comida.  Lembro que ficávamos horas na fila para poder comprar leite, carne, arroz e feijão.  E isso não foi em nenhum período pós-guerra não!  Isso aconteceu nos anos 1980!  Época de transição política com o fim da ditadura e o retorno da democracia.  Os militares deixaram o país em um endividamento externo absurdo e o país afundava com a elevação dos juros e a desvalorização da moeda devido aos empréstimos realizados ao Fundo Monetário Internacional (o tão falado FMI).   A consequência foi um monte de planos de estabilização da economia (Cruzado, Bresser, Verão) e um período de moratória, manchando a imagem do Brasil internacionalmente.  Mas eu tinha a convicção que minha mãe deixaria de me acordar às seis da manhã e que, em algum determinado momento, tudo se resolveria.

Em uma década, mudamos cinco vezes de moeda.  Entre 1993 e 1994, a inflação chegou a atingir 5.000% ao ano.  Tivemos que engolir a morte de Tancredo, o bigode pmdebista do vice Sarney, o almofadinha Collor de Mello (e sua renúncia para não sofrer o impeachment) e o topete pmdebista do vice Itamar Franco (já repararam que o PMDB do “vice” Temer sempre entrou pelas beiradas?), FHC etc e tal.  Aguentamos tanta coisa... Sempre fui um otimista.

Reza a lenda que o pervertido imperador Calígula nomeou seu cavalo Incitatus ao senado romano.  O animal tinha 18 criados, usava colares de pedras preciosas e dormia em trajes imperiais.  E quando eu vejo determinadas indicações vindas de nosso mais alto posto, nem considero Calígula tão louco assim.  E confesso que isso me desanima, sabe?  É como se a nossa bateria fosse ficando cada vez mais fraca e desgastada.  Falta pouco menos de dois meses para o primeiro turno das eleições e, na situação atual em que vivemos, a perspectiva é péssima. 

Alguém aí se lembra do icônico chimpanzé temperamental do Zoo do RJ que atirava cocô nos visitantes e mostrava o pau para as mulheres?  O macaco Tião se tornou popular quando, numa brincadeira do pessoal do Casseta & Planeta, foi candidato a prefeito em 1988 (numa época em que ainda não havia urna eletrônica) e recebeu mais de 400 mil votos, sendo o 3º mais bem colocado nos resultados.  Obviamente, estes números de Tião eram resultado de um grande protesto.  E, atualmente, o que vemos é a mesma população revoltada buscando um novo macaco Tião em meio a devaneios, candidatos histriônicos e grandes utopias.

Temos cavalos e temos chimpanzés.  E, infelizmente, a escolha será péssima.  Ou não.  A bateria está acabando, mas sigo com 1% de otimismo buscando por aí um recarregador.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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