sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Ainda Precisamos Romper Muitos Grilhões





Hoje eu queria fazer um pequeno desabafo com um certo pesar e queria deixar no ar um questionamento para todos vocês, meus leitores: afinal, até onde vai nosso preconceito? 

Vivi uma situação muito constrangedora essa semana e gostaria de compartilhar aqui com vocês. Por um acaso, encontrei um amigo que tenho muito carinho, em Botafogo. Há algum tempo não o via e o chamei para tomar um café e colocarmos o papo em dia. Eu tinha acabado de sair do trabalho e, mesmo cansado, conversamos bastante. Esse meu amigo é um daqueles jovens superdotados: tem um QI elevadíssimo, fala várias línguas, discute filosofia, história da arte, antropologia, é ator, superdescolado e com uma conversa agradabilíssima.

Por mais de uma hora discutimos sobre filmes do Bergman, cinema asiático, a situação política do país, bolsas da Capes, mestrado, doutorado, projetos de pesquisa, adversidades em morar no exterior e ele me confidenciava sobre a felicidade e os desafios de seu recém casamento.

Papo vai, papo vem, nem percebemos que o shopping já estava fechando. Descemos e fomos em direção ao metrô. Na esquina, ele colocou a mão sobre meus ombros e se despediu com um abraço apertado. Estava atrasado para buscar a esposa e correu sorrindo pela rua acenando e com aquele discurso de carioca: “temos que marcar algo de novo para continuarmos a conversa!” até desaparecer de minha vista.

Imediatamente um homem se pôs ao meu lado. Percebi que ele já estava me seguindo desde o interior do shopping. Me deu boa noite e meio ressabiado, respondi secamente “boa...”. E, o que ouvi depois, me deixou muito triste.

- Aquele jovem que estava com você...
- Hã... sim...?
- Eu vi que ele estava com você no shopping. Ele te fez algo? Ele queria te assaltar?
- Assaltar? Como assim?

(acho que o indivíduo caiu na real depois da pergunta cretina)

- Opa, desculpe, eu só queria ajudar... É que hoje a gente vê muita coisa estranha e achei que...

(nesse momento o cortei, ríspido e completei a frase...)

- ...achou que só porque ele é negro, estava de chinelos e não estava assim como eu, todo “engomadinho” que era um assaltante em potencial?

Acho que nesse momento, meu olhos encheram-se de água. Fiquei trêmulo e ao mesmo tempo em que o cara tentava se desculpar por ter falado aquela bobagem, também aumentava a voz quase em um tom grosseiro, justificando um ato quase “vingador”.

Em segundos passaram alguns flashes na minha cabeça... Dos olhares enviesados dos clientes na cafeteria, da desconfiança dos lojistas... E minha ficha caiu... É muito triste constatar que, em um país onde a maioria de sua população é mestiça ou negra, ainda exista esse preconceito idiota.

Tem político por aí dizendo que o país não tem dívida histórica com a escravidão. Fingir que não existiu esse passado por séculos é a mesma situação que apagar a história do holocausto e da perseguição aos judeus na Alemanha nazista.

Pra quem faltou às aulas ou não entende de história, mais de 5 milhões de africanos foram migrados involuntariamente, capturados e trazidos para o Brasil durante o primeiro ciclo da cana de açúcar, quando o país era colônia de Portugal, no século XVI. E mesmo depois da abolição, os negros não tinham para onde ir. Muitos se sujeitaram a continuar trabalhando para seus senhores em troca de moradia e um prato de comida. Qual foi a forma de inclusão social aí neste período?

Outro dia li um artigo que mostrava o resultado de uma pesquisa em que a participação percentual da população branca no Brasil caiu de 46,6% para 44,2%, enquanto a participação dos pardos aumentou de 45,3% para 46,7% e a dos pretos, de 7,4% para 8,2%. Até o Censo 2010, os brancos representavam mais da metade da população e naquele ano, pretos e pardos ultrapassaram devido a fatores como a própria miscigenação e, no caso do aumento da autodeclaração de pretos, existe o reconhecimento da população negra em relação à própria cor, que faz mais pessoas se identificarem como pretas. Mas dentro desse discurso político racista e por essa situação em que vivi esta semana, muitas vezes me sinto num trem desgovernado. É um retrocesso absurdo. Um retrocesso social, cultural, antropológico... Tá tudo muito errado. 

E, enquanto isso, muitos amigos nossos, negros, estarão aí sofrendo o mesmo olhar reprovador sem poder dividir momentos em uma cafeteria em um shopping da zona sul ou sem poder dar um abraço mais afetuoso em uma esquina qualquer.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Anselmo Almeida disse...

Aquele nosso racismo institucional e estrutural. Eu ja passei por algo parecido em pleno RioSul.

Marcia Marino disse...

Triste realidade do nosso Brasil... Belissimo texto!!