terça-feira, 21 de agosto de 2018

As Flores de Plástico Não Morrem. Mas Será Que São Felizes?





Na última semana que passou, vários conflitos permearam a minha cabeça sobre as escolhas que temos que fazer em nossas vidas. Seja abdicar de algo para mantermo-nos em um emprego bacana e consolidar a nossa carreira, seja para vivermos em harmonia numa sociedade que dita as regras do que é certo e errado para nós, ou simplesmente para vivermos felizes dentro das nossas convicções de crença e felicidade.

Esses temas fervilharam a minha cabeça e me trouxeram várias ideias de texto, que talvez no decorrer das próximas semanas eu desenvolva de forma diferente, mas abordando com o mesmo cerne.

Resolvi então fazer uma breve analogia com uma música que sou apaixonado: Flores. Veja, não se trata de uma análise do que realmente quer dizer a letra, mas uma interpretação própria à luz das discussões e pensamentos acima que tive essa semana.

Quando comecei a depurar esta letra, imortalizada pela banda Titãs, escrita por Sérgio Britto, pesquisei um pouco na internet e duas ideias se mostraram majoritárias: a de um suicida que após sua morte narra o que vê a partir de sua condição de morto, e a do mesmo suicida que consegue sobreviver após a tentativa de matar-se e aprende com seu ato. Mas nenhuma delas teria a ver com o que eu pensava. Ora, mas então de que forma essa relação seria aplicada aos meus conflitos? Eis que lhes apresento minha louca analogia (que talvez possa ser a sua também) ...


E o que são flores? Flores são frágeis, se despedaçam, se despetalam, secam. Bem, mas quem poderia ser tão frágil quanto uma flor? Por mais absurdo que pareça ser, talvez o único ser vivo que apresenta a fragilidade das flores é o ser humano, sentimentalmente falando. Por serem tão frágeis, nem sempre é fácil lidar com as pessoas. Certas vezes, acabamos magoando quem não merecia. Outras vezes, acabamos magoados. E é esse o questionamento principal do meu eu poético. Por que é tão difícil conviver com as pessoas sem magoá-las ou ser magoado?

Então, olho-me no espelho até cansar, buscando uma resposta. E choro por ter "despedaçado" as pessoas mais próximas a mim, intencionalmente ou não. E, mais do que chorar por ter machucado essas pessoas, ainda sofro por também estar machucado em partes ou, por vezes, por inteiro. Pelos julgamentos, pelos impedimentos de seguir as minhas convicções em prol de uma aceitação que talvez não seja a que eu queira.

É difícil conviver com elas, mas as pessoas estão por todo o lado, assim como as flores da música. Abaixo de nós, acima de nós, em tudo que vemos, em tudo que fazemos, em tudo que sentimos há a atividade humana. E o que fazer? Não há nada a fazer. Apenas podemos esperar e deixar que a mágoa decorrente de nossos relacionamentos fracassados nos corroam. Ou podemos apenas esperar que a dor cure todas as lástimas porque, e todos já devem saber, não existe uma cura médica para isso.

O que o meu eu romântico ao ouvir essa canção talvez não tenha entendido é que é normal nos magoarmos em nossos relacionamentos, nos machucarmos e machucar as pessoas. As nossas dores e as que causamos podem fechar as nossas feridas, os nossos cortes, nos tornando fortes diante de nossas adversidades e nos fazendo refletir todas as vezes que vemos as tais cicatrizes. Para esse eu, algumas pessoas já não são sinônimo de entusiasmo, mas sim de indiferença, visto que elas mataram (ou matam) algo em nós, de alguma forma. 

Por fim, cuidemo-nos para não sermos tão resistentes às agruras da vida e tornarmo-nos robóticos, sem vida, sem sentimentos. Vivamos! Talvez as pessoas, na crença de serem vazias de sentimentos, em busca ou não de evitarem sofrimento e decepções, tornem-se como as flores de plástico: vazias por dentro, sem vida e que não morrem. Permitem-se ser moldadas para cumprir seu papel na sociedade, da mesma maneira que as flores artificiais são adequadas ao ambiente que são colocadas e duram o tempo que quem as colocou quer. Mantém sua aparência sempre perfeita e eternizada numa máscara de beleza, mas que desconhecem sentimentos. Sentimentos estes, que só os que vivem de verdade e se permitem sofrer, por experimentar o amor, as decepções ou as reprovações, passarão por essa vida de maneira plena e, quem sabe, realmente experimentando a real felicidade. 

Cabe a você decidir se quer ser uma imortal, porém, infeliz, flor de plástico...

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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