segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Ciático





Eu completei 37 anos no último dia 22 de julho. E ainda acho incrível esse número. Trinta e sete. Porque parece que foi ontem e eu tinha 15 anos e esperava ansioso para fazer 18, ter a minha liberdade, a minha vida, a minha independência. Somos tão tolinhos e idiotas quando adolescentes, não?

Os 18, é claro, chegaram. Na verdade, o dobro dessa idade mais um ano, vividos intensamente e sem grandes arrependimentos. Com o passar do tempo veio realmente a independência, a liberdade, uma vida que, sendo bem sincero, eu nem imaginava possível pra mim quando era aquele adolescente bobo do interior do estado do Rio. Mas, com o tempo - e a idade! - vieram também as complicações.

Se com 15 anos eu achava que depois dos 20 eu estaria casado, com família constituída e vivendo um comercial de margarina, eu descobri que, aos 37, tive relacionamentos diversos e intensos, casei e separei, me permiti viver, amei e fui amado, mas bem longe do modelo de cartilha tradicional que eu julgava que seria seguido por mim. E com essas surpresas, me encontrei e abracei a felicidade de me permitir.

Hoje, aos 37 anos, sou um homem bem resolvido e sem grandes dilemas. Meus amigos poderiam me definir como cartesiano e prático e eles não estão muito longe da verdade. A gente nunca é só uma coisa, certamente, mas algumas de nossas características são visíveis e indiscutíveis.

Mas todo esse preâmbulo nada mais é do que uma pequena introdução feliz para dizer que nem tudo é belo ao envelhecer. E, se na adolescência eu ansiava por ficar mais velho e conseguir tudo que a vida adulta poderia me proporcionar, com o passar dos anos a gente se dá conta de que, no fim das contas, a gente pode amadurecer, mas o tempo, essa entidade que nos cerca, é implacável.

Sou alguém bastante ativo. Tenho minhas atividades cotidianas, um bom grupo de amigos e muitas reuniões sociais. E mantenho a minha agenda de exercícios físicos, que faço não por ser fit e mais por necessidade de manter tudo funcionando adequadamente com o passar do tempo. Porque depois dos 30, o nosso corpo passa a nos mostrar que já não é mais como era aos 20 e poucos; as noitadas cobram seu preço, a preguiça começa a se instalar e a máquina biológica que é o nosso corpo pode apresentar pequenas avarias.

Alguns dias depois do meu aniversário eu fui apresentado ao meu nervo ciático. Ele, que aparentemente sempre funcionou como deveria e nunca me incomodou, resolveu dar as caras na forma de uma dor persistente que se irradiava a partir da base da minha coluna e para as minhas pernas... Incômodo besta, mas incômodo, que o médico identificou como uma pequena inflamação no nervo ciático. E eu fiquei com esse nome na cabeça. Ciático. A ponto dele, inclusive, batizar a coluna de hoje.

É claro que não é apenas o ciático que está aí para nos fazer encarar a nossa insignificância. As gordurinhas que se alojam onde antes não se acomodavam; os cabelos brancos que insistem em se proliferar; o vigor que não é o mesmo e, muitas vezes, faz você trocar uma grande noitada por uma noite feliz de filmes e séries em casa no conforto do seu lar. Somos o acúmulo de nossas experiências e tudo que a vida nos dá, inclusive esses pequenos contras que tanto podem nos assustar.

Mas, sendo bem sincero, apesar dos pesares, acho que, fisicamente, estou melhor aos 37 do que estive aos 20 e poucos, por exemplo. Tenho me achado mais interessante, seguro e, a bem da verdade, até mesmo mais bonito. Eis uma benesse da maturidade.

E, com ciático ou sem ciático, vamos com o fluxo diariamente, aprendendo a lidar com as limitações que podem surgir e seguindo em frente, prontos para a próxima fase desse joguinho chamado vida. Até porque, a alternativa, com ou sem envelhecimento, não é nada agradável e eu, sinceramente, prefiro continuar com as minhas peças no tabuleiro, aproveitando cada minuto que me seja possível ao experimentar essa existência.

Carpe diem!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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