quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Dia dos Pais é Só Para Brancos?




Uma propaganda bem-humorada, com um homem mostrando a sua forma de olhar as relações com seus filhos, dizendo que “nasceu pra ser pai” para vender perfumes no Dia dos Pais. Seria um comercial como outro qualquer, ano após ano, não fosse por uma questão: a cabeça racista dos expectadores. A família representada é inteiramente composta por atores negros, como em diversas vezes já fora com atores brancos em inúmeras peças publicitárias. E somente isso foi o suficiente para começar uma campanha de “dislikes” no vídeo no Youtube. 

Quem me alertou desse movimento foi o Leandro Faria, nosso editor do Barba Feita. Nessas horas é bem difícil a gente lembrar que tem que fazer esforço contra horrores como esse do racismo, bem como do machismo, homofobia, discriminação social... E você pode até se perguntar: “como pode isso em pleno ano de 2018?”, mas isso é a maior prova de que nós vivemos em determinadas bolhas em um mundo e país ainda pouco avançado em relação a direitos humanos e empatia. 

Toda vez em que vejo atores negros atuando me pergunto: “eles só estão ali porque seriam personagens negros (a representação de um escravo, por exemplo, ou uma adaptação da literatura de um personagem de pele negra) ou poderia ser qualquer ator?”. Esse é um golaço de O Boticário com o comercial (aliás, eles já foram criticados antes por mostrar um casal gay em uma propaganda de Dia dos Namorados): não existia a rubrica “ator negro” para fazer esse papel. Foi uma escolha simplesmente por retratar uma família real, no país com o maior número de negros e descendentes do mundo. Lembro-me sempre do Lázaro Ramos comentando sobre seu papel em O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, ter sido escolhido pela sua capacidade e não pela sua cor da pele, já que qualquer bom ator poderia ser o protagonista. Porém, infelizmente, isso ainda é muito mais exceção do que realidade. 

Existirem pessoas que se sintam “ultrajadas” por assistirem ao anúncio em questão é um choque de realidade. Por isso, combater piadas preconceituosas não é “mimimi” ou “ficar chato”. É necessário. Somente quem sente na pele, com trocadilhos ou não, é que pode dizer o quanto é atingido quando alguém chama de “crioulo”, “tição” ou “chocolate”. Ou ter que escutar que “nossa, pra um negro você é bonito”. Ou ouvir, como eu ouvi quando era pequeno e já relatei aqui no Barba Feita antes, que “eu não tenho problemas com negros, é só uma questão de higiene”

A boa notícia é que, como resposta, uma corrente se formou para dar likes (já são mais de 104 mil) e comentários positivos no vídeo de O Boticário. E a própria empresa se posicionou, dizendo que “as reações que o nosso filme gerou só mostram pra nós que temos muito trabalho a fazer. A gente acredita no respeito a todas as pessoas e deseja que, em breve, isso não seja mais motivo de desconforto pra ninguém”. Golaço (de novo) pra O Boticário. Negros não hão de voltar pra senzala. E racistas não passarão.



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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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