quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Na Fila do Banco...




Outro dia, muito que por acaso, encontrei um amigo que não via há tempos. Sabe como é. A vida anda corrida, agitada mesmo! Como estávamos no banco não foi preciso marcar uma saída que nunca iria acontecer de fato. Coisa de carioca! 

A fila era grande e a senha que cada um tinha na mão parecia bem distante de ser anunciada no telão. Foi quando esse meu amigo decidiu puxar assunto e me perguntar como estava minha vida. Contei que não sabia o que era ter tempo livre desde dezembro do ano passado, mas não tive nem tempo de concluir meu raciocínio. Fui atropelado por informações de como esse meu amigo estava. Alias, nada bem. O casamento de três anos periga de terminar. Ele não anda tendo mais tesão no marido e o marido não anda querendo mais saber dele como antes. Um problemão. Ele ainda me confidenciou que não pretende abrir a relação e que isso é só uma desculpa que os gays criam para não demonstrarem que o casamento acabou e que precisam de "carne nova" para satisfazer o que não anda muito bem...

Essa é a opinião dele; a minha, ele não perguntou. Continuou me relatando das dificuldades que é manter essa mesma relação de anos e continuar fiel durante todo esse tempo. Se vangloriou de ter recebido cantadas e nunca ter caído em tentação. Fiquei muito admirado. Não por ele não ter traído, mas por perceber que os argumentos estavam bem mais relacionados a manter a aparência de bom moço do que pelo respeito com o cara com quem é casado. 

Fiquei por silêncio uns bons quinze minutos. A fila continuou andando lentamente e nesse tempo todo só quatro pessoas foram chamadas. Meu número e o desse amigo continuava bem distante de aparecer naquela tela. Mas após o relato de fidelidade, esse meu amigo também se calou. Acredito que ficou pensativo com o que me confidenciou. Talvez tenha iniciado um processo de análise profunda da própria vida. Ou só tenha ficado sem assunto mesmo. Não demonstrei nenhuma vontade de puxar um novo tópico para conversa. Tive até medo que ele fosse tentar continuar o papo que só ele estava interessado. Mas o silêncio entre nós dois continuou e fiquei grato por isso. 

É incrível como fidelidade passou a ser vista como um adjetivo para ser utilizado como um prêmio. Estou casado, mas continuo fiel. Noivei, mas sou fiel... Namoro, mas fiel eu sou! Não consigo compreender o momento que a traição virou quase que uma rotina nas relações. Talvez seja um sinal do novo tempo em que vivemos. Quem sabe ficar casado seja parte de um status para ostentar nas redes sociais... Ou estar sozinho ofereça tanto medo que as pessoas prefiram continuar nas relações fakes... Vai saber. 

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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