quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Jogo dos Tronos: Fantasia e Realidade Cruel




Já expliquei aqui no Barba Feita que sou um retardatário quanto a séries. Tenho recuperado meu tempo perdido nas horinhas que me restam de lazer durante a semana – ainda assim tem uma infinidade de outras na fila para serem vistas. A mais recente a que assisti do início ao fim foi Game of Thrones. Fomos da primeira à sétima temporada em poucos meses, numa maratona dia após dia, que passou por muito amor, mas também muito ódio com a série. Ao menos da minha parte. Mas você pode ler tranquilo que aqui não tem spoilers, tá?

Demorei para engrenar em GoT: não sou fã de histórias com estilo medieval, muito menos com fantasia (uma das poucas sagas fantasiosas que eu gosto muito é Harry Potter e também demorei a me afeiçoar a Star Wars). A banalização da morte e o desprendimento com personagens com certo protagonismo, somados ao fato de que eu sabia de alguns spoilers que havia visto no Facebook à época em que as temporadas eram transmitidas, me causaram também certa rejeição. Mas perseverei e acabei sendo fisgado de vez – tudo bem que após o episódio mais chocante e quase ultrajante (ao fim da terceira temporada, no qual ocorreu o famigerado “Casamento Vermelho”), eu quase pensei em desistir... 

Lembro-me que uma vez um ex-chefe me disse que quanto mais a gente subia na carreira, mais chegávamos a um nível Game of Thrones de competição cruel e de gente falsa à nossa volta. Mesmo sem conhecer a série em detalhes, entendi o que ele queria dizer. Eu só não sabia que a história era tão nua e crua em torno do poder. Há uma frase emblemática dita por uma das protagonistas, Cersei Lannister, que resume bem toda a história:
“Quando você joga o jogo dos tronos, ou você ganha ou você morre.”
O seriado deixa muito claras as tendências humanas pela ambição, pela sede de poder, pela amoralidade, pela riqueza, por subjugar o outro... A história é uma ficção, se passa em um reino fantástico onde existem dragões e gigantes, mas essa parte especificamente é extremamente fidedigna à história da humanidade e o seu desapego à vida alheia quando é do seu interesse. 

Imaginar que passamos por eras como as retratadas ali em Westeros é extremamente desolador. Talvez isso tenha sido uma das maiores dificuldades que encontrei: nos vermos retratados ali e imaginar quantas vidas foram ceifadas para chegar até onde chegamos. E também refletir sobre o quanto continuam sendo ceifadas e banalizadas, agora em novos contextos e valores. Se antes não havia indignação, agora a indignação é seletiva (ou alguém tem dúvida de que se indigna mais com um adolescente branco da Zona Sul sendo assassinado no asfalto ou um menino negro da favela sendo abatido no morro?). 

Estou naquele momento órfão de Game of Thrones e sua trama cheia de reviravoltas e episódios chocantes. Muitos passaram por isso em 2017 ainda e, o pior, a série só volta em 2019. Agora, só resta aguardar, ler as diversas teorias de fãs que existem por aí, colocar outras séries em dia e me indignar com a vida real, que, por vezes, supera a ficção... 
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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