sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Quinze Anos




No dia seguinte à morte de minha mãe, imaginei que ela estava ao meu lado, me acordando para que eu não chegasse atrasado no trabalho. Eu já estava acostumado com essa rotina pois, anos a fio, ela repetiu isso... Cinco minutos antes do combinado, puxava devagar o lençol ou cobertor e afagava meus cabelos para que aos poucos eu pudesse despertar. Eu sempre caía no sono novamente e, ao final dos cinco minutos de lambuja, novamente chegava à beira de minha cama e avisava baixinho: “agora, chega de preguiça. Já está na hora de levantar mesmo!”

Mesmo após sua partida, todos os dias ainda sentia verdadeiramente a sua presença ao me despertar cinco minutos antes. Também cheguei a imaginar sua risada inconfundível ao telefone e sua mansidão, desejando um bom dia. Hoje eu tenho certeza de que ela sempre esteve por ali, para que não sentisse tanto sua falta. 

Minha mãe sempre soube que eu adorava vislumbrar o céu durante as altas horas e acompanhar as luzes dos faróis que eram projetados no teto do meu quarto. Uma vez, comprei um desses kits adesivos que brilhavam no escuro e inventei meu próprio céu. E em uma noite na qual me contorcia de dor devido às frequentes crises renais, ela se deitou ao meu lado e, juntos, ficamos observando as estrelas fluorescentes que intensificavam seu brilho todas as vezes que os faróis dos carros eram esboçados. Cada vez que os espasmos vinham, ela parecia saber o momento certo de apertar minha mão com força até o sofrimento se dissipar. Em silêncio, debaixo do universo de papel luminoso, viajávamos pelos planetas imaginários, sem dores ou angústias.

Lembro que nas tardes de sábado, degustávamos o Songs to learn and sing, do Echo and the Bunnymen, na íntegra. Na última vez que ouvimos este disco, o céu amarelo intenso da capa do disco se confundiu com o mesmo tom do céu de Brás de Pina. Sob o sopro do vento frio do inverno de julho, sabíamos que aquele cenário era uma espécie de sinal. Tudo havia sido projetado pelo Grande Arquiteto para que, mesmo silenciosamente, nos despedíssemos com a trilha sonora perfeita e a pungência de The Killing Moon: “O destino / mesmo contra sua vontade / e através de todos os caminhos / te esperará / até que você se entregue a ele”.

Poucos dias depois ela se entregou ao destino.

A encontrei num leito frio de um hospital ainda relutando para partir definitivamente. E da mesma forma que ela vinha, madrugada adentro para fazer com que minhas dores fossem embora para longe, toquei seus dedos, já frios. E, no momento certo, também segurei com mais força sua mão e o sofrimento cessou. Em silêncio, as lágrimas brotaram sem parar e, observando aquelas paredes e tetos sem vida, imaginei um céu somente para ela. 

Quinze anos já se passaram. E, muitas vezes, ainda desperto no meio da madrugada com o telefone tocando, atendo e imagino sua frágil voz me perguntando como foi o meu dia de trabalho. 

E quando isso acontece, corro para a janela e observo atentamente o firmamento. Em algum lugar do infinito certamente ela sorri, já sabendo que precisará afagar os meus cabelos cinco minutos antes de meu despertar.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

7 comentários:

JULIO CESAR BRITO disse...

Lindo e sensível. Impossível não se emocionar ❤️

Katia Cristina Duraes Duraes disse...

Como não se emocionar ao ler esse relato, simplesmente lindo amor de mãe e unico.😍

Marcia Marino disse...

Até hj me pego pensando quando chego em algum lugar... "Tenho que ligar para minha mãe..." É triste... Lindo texto! 😘♥️

Unknown disse...

Lindas palavras Deus sabe de todas coisas , sua mae esta num bom lugar olhando por vc .Voce e um sabio ceetamente ela vibra com seu sucesso

arlinda e carlos Castro disse...

Tão intenso e sensível .

Fabiano Alvares disse...

Lindo, sensível e emocionante!
❤❤❤❤❤👏👏👏👏👏

Claudia disse...

Como não se emocionar lendo esse texto. Lembrei de muitos momentos que passei com minha mãe. Saudades.