quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Sobre Canhotos, Gays e Outras "Abominações"




Essa semana começou com uma celebração, no mínimo, curiosa: segunda-feira, dia 13 de agosto, além de ser o Dia do Desgosto é também o Dia Internacional do Canhoto. Entre tantas datas esdrúxulas para serem lembradas, essa teve o seu significado histórico: durante muitos séculos, os canhotos eram vistos como errados, como abominações, perseguidos inclusive de forma religiosa. Parece inacreditável, mas havia quem achasse que os que escreviam com a mão esquerda iriam para o inferno simplesmente por nascerem assim. A coisa é tão pesada que o sinônimo pra canhoto é "sinistro", enquanto destreza é analogia para quem é habilidoso. 

Cerca de 10% da população mundial é canhota. Os outros 90% estão divididos entre destros e ambidestros. Calcula-se que um grande percentual das pessoas possa ser ambidestro, mas acaba optando pela mão direita dominante simplesmente por ser algo convencional na sociedade. Passados tantos anos e após inúmeros estudos, ainda há intolerância e preconceito contra canhotos mundo afora, embora já tenha sido esclarecido que não há nada de errado e existam até vertentes que associam os tais “sinistros” à criatividade e à intelectualidade. 

Por que estou dando tanto espaço ao assunto? Já parou para pensar se substituirmos o termo “canhoto” por “gay” no texto acima? Também “ambidestro” por “bissexual” e “destro” por “hetero”? Faz sentido, não faz? 

A humanidade, historicamente, traça as suas convenções e quem está fora dela acaba sendo perseguido por uma lógica coletiva de subjugar para se afirmar. Em nome de Deus muito se matou (e ainda se mata). Criou-se um Deus à imagem e semelhança dos dominantes: homem, senhor, branco, forte e destro. Curiosamente, no quadro A Criação de Adão, de Michelangelo, Deus dá a vida ao homem através de seu braço direito e o homem a recebe com o braço esquerdo. 

Hoje, vemos a mesma perseguição histórica ainda ser reproduzida com a população LGBT. O discurso de intolerância, inclusive, toma as plataformas eleitorais nesse ano em que vamos às urnas – mais forte do que nunca. Ainda assistimos a racistas destilarem seus preconceitos como se fosse algo natural do ser humano. Ainda temos que ler notícias de mulheres estupradas, espancadas e mortas por seus companheiros simplesmente porque eles se acham no direito. Ainda notamos discriminação contra pessoas com deficiência, síndrome de Down, gordos, idosos... Como se não fossem, apenas, humanos, mesmo que diferentes em alguma coisa. 

E existem aqueles que questionam por que é necessário um Dia do Orgulho LGBT ou um Dia Internacional da Mulher... Espero eu que, um dia, assim como pode parecer esdrúxulo celebrar o Dia do Canhoto, se torne sem sentido falar em uma data para os LGBT ou para a Mulher. Por ora, ainda não dá para prescindir...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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