terça-feira, 7 de agosto de 2018

Uma Questão de Fé



“Vamos saudar a liberdade cultural e religiosa, respeitando uns aos outros e percebermos que quando se há fé, para o bem, todos os caminhos levam a um único objetivo: o amor entre irmãos! ”

Com essa frase eu encerrava, há dois anos, a última cena do espetáculo Exu – Luz no Caminho, um dos meus maiores desafios na minha curta carreira teatral. Na época, eu, por ter uma criação católica, me recusara, em princípio, a interpretar uma entidade no teatro, por preconceito. Não tinha temor propriamente dito. Não gostava, simplesmente.

Exu me fez refletir sobre muitas coisas na minha caminhada, até então, pela fé. Não me tornei um discípulo da umbanda ou do candomblé. Mas passei (e muito) a respeitar as outras crenças.

Foram pesquisas na internet, livros sobre o assunto, laboratórios em terreiros, para que eu percebesse que ali, como nas igrejas evangélicas, católicas, ou em templos de outras religiões menos populares, a frase que me foi incumbida para encerrar a peça tinha mais força do que simplesmente proferir um fragmento de texto. Tinham muitas mensagens dentro de uma mensagem. Ela vinha após uma cena de muita emoção, mas confesso que dizê-la me trazia muito mais sentimento. As lágrimas eram inevitáveis, pois junto do texto vinham as lembranças de cenas de intolerância, onde a agressão e crimes em “nome da fé” interrompiam ou prejudicavam a vida de inocentes.

No último fim de semana, estive na Igreja de São Judas Tadeu, que em algumas casas de umbanda é sincretizado como o orixá Xangô, pelo símbolo do machado e pelo poder de amparar os desesperados. No Brasil, cada orixá normalmente é associado a um santo da Igreja Católica, em uma prática que ficou conhecida por sincretismo religioso. Xangô é, mais popularmente, conexo como São Jerônimo e São Miguel Arcanjo. A associação, também, à São Judas tem a ver com o machado, que ambos carregam em suas mãos. O machado da justiça. E como juízes, muitos líderes religiosos, equivocadamente, hoje se comportam. Inflamam discursos e comportamentos de seu rebanho que, cegos pela fé, tomam para si aquela interpretação da Bíblia, como tantos juristas amparados pela lei, fazem suas próprias interpretações tendenciosas da legislação.

“A Bíblia diz que...” (alguns líderes religiosos iniciam seu discurso assim) ... Jesus disse para amar ao teu próximo como a ti mesmo. E o que mais vemos hoje em dia é uma exclusão cada vez mais criteriosa desse dito próximo. São destruições de templos, suicídios e assassinatos em massa em nome de uma fé que eu desconheço. Onde estaria então o amor pregado pelo Livro Sagrado?

Tempos depois de interpretar um exu, foi-me designado um outro papel: Chico Xavier, no espetáculo Irmã Scheilla - A Enfermeira do Alto. Na minha preparação, me preocupei em adquirir os trejeitos e o tom da voz daquele ícone tão conhecido. Mas as falas sumiam da minha cabeça, pois o meu foco estava somente no externo. Quando realmente deixei minha sensibilidade aflorar, percebi que era, mais uma vez, além de um texto a ser interpretado, o amor que tinha que ser reverberado.

A fotografia que ilustra o texto de hoje, feita por mim na minha visita à igreja, me remeteu à um símbolo que via muito nos meus laboratórios para a primeira peça, nos templos de umbanda e candomblé: uma pomba branca (ou eiyelé funfun). Acendi algumas velas no templo. Ajoelhei e não fiz uma oração ensaiada. Fiquei com o pensamento solto como se em meditação. E naquele momento meu, de fé, muitas coisas passaram pelo meu pensamento, que como num passe de mágica me remeteu aos espetáculos e a tudo que aprendi até ali. Era como se meu espírito saísse do corpo e sobrevoasse várias situações como numa cena de filme, me fazendo transgredir dentro das minhas próprias experiências.

Saí da igreja com a reflexão de uma passagem que lia muitas vezes, na missa dos domingos, e só depois de deixar de vê-la como um fragmento de texto, como nas peças de teatro, mas sentí-la verdadeiramente, passei a entender melhor e respeitar a fé alheia, não tornando isso um fator excludente para mim:
“Se alguém afirmar: 'Eu amo a Deus', mas odiar o seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê”. 1 João 4:20
Dedico este texto às Cias. Teatrais Meraki e Juntos & Misturados e a todos os profissionais que trabalharam nelas comigo, por me apresentarem uma nova forma de respeito e de amor.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Fabiano Alvares disse...

Gostei muito do texto! A ignorância fortalece o preconceito e buscar conhecer e respeitar o diferente nos torna mais ricos.