quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Bandeira Que Anitta Não Quis Carregar





Primeiramente, #EleNão

E sim, meu assunto na coluna de hoje é sobre Anitta e o lado que ela teve medo de dizer que apoia. Para você ter uma idéia de como tudo está tão louco no nosso país, se me perguntassem na segunda-feira passada, 17/09, o que eu sentia por Anitta, sem dúvida nenhuma abriria automaticamente um sorriso e faria uma lista com inúmeros elogios e vários adjetivos, muitos exaltando escolhas feitas por ela ao longo de sua carreira meteórica... Mas, se você me fizesse na quinta-feira, exatamente uma semana atrás, no dia 19/9, a mesmíssima pergunta, minha resposta seria uma só: raiva! Ou talvez completa frustração. 

Passei os últimos dias travando uma batalha interna e externa escrevendo inúmeros textos para tentar entender de alguma maneira o que estava acontecendo. Muito provavelmente toda essa confusão interna que estava sentindo se deve ao fato de ter acompanhado desde 2013 a ascensão musical de uma cantora que vinha quebrando paradigmas. Afinal, aos poucos, aquela menina que muitos diziam que seria dona de um hit só que era de Honório Gurgel, só marcava gols rumo ao sucesso… Marcava.

Antes de continuar é preciso entender uma coisa. Quando soube, umas duas semanas atrás, que cobrariam de Anitta um posicionamento nessas eleições, em um primeiro momento fui totalmente contra. Ela estava off de suas redes sociais, tinha acabado de se separar. Não era o momento para se meter nessa briga que, até então, não a pertencia. Inclusive, achava que ela estava certa em não querer tocar em um assunto tão delicado como esse. Mas isso foi antes. Bem antes de existir todo um movimento chamado #EleNão

Ao retornar de seu “tempo longe das redes”, Anitta fez show, se apresentou no The Voice Brasil e nada falou. E foi aí que o meu “posicionamento” em entender seu silêncio mudou. Por acreditar em tantas coisas que foram ditas por ela ao longo dos últimos anos. Por testemunhar todo seu amadurecimento no palco e em seu trabalho como um todo, sabia que muito naturalmente ela iria se sentir parte do movimento. Mas enquanto eu via uma união de pessoas que se sentem ameaçadas por tudo de ruim que esse candidato representa, ela via política. Não que o uso do #EleNão não seja um ato político; é. Mas não em favor de determinado candidato, muito pelo contrário. Se esse movimento existe é para ser contra uma série de injustiças que são estimuladas por ele. 

Pois bem, o silêncio sobre esse assunto continuava. E mesmo sem entender o motivo, meu respeito se mantinha, afinal, ela não querer se meter nessa questão era uma escolha dela. Eu só poderia lamentar por isso. E foi o que fiz…Até acordar exatamente uma semana atrás e ser surpreendido com uma chuva de mensagens. Anitta finalmente havia “se manifestado”, mas não como todos esperavam. A cantora seguiu uma apoiadora daquele que não deve ser nomeado, o que deixou todo mundo chocado.

Fun Fact: nunca pensei que falaria esse termo, criado por J.K.Rowling, de maneira séria, mas, sim, estou. 

Pouco tempo depois a explicação veio. Ou quase isso. A cantora não havia seguido um perfil político destinado ao candidato em questão, mas o de uma amiga de longa data que, ela sim, apoiava o candidato. Anitta naturalmente se defendeu, disse que não compactuava com esse tipo de pensamento, mas reforçou que não queria apoiar nada e iria se manter calada. Enquanto meio mundo só esperava por uma simples hashtag ser postada no perfil da cantora, por pura curiosidade mórbida decidi dar uma “espiada” no tal perfil que gerou toda essa polêmica e fiquei chocado. O linguajar utilizado pela “amiga de muitos anos” da estrela da música pop brasileira era dos piores. O primeiro storie, por exemplo, destilava puro ódio e preconceito por Kéfera (atriz e youtuber) que havia se posicionado contra o @, que me recuso a citar neste texto. Depois de sentir nojo do que assistia, resolvi desligar o meu celular por um tempo e tentar não pensar no assunto, mas isso foi completamente impossível.

Em um primeiro momento não consegui acreditar que Anitta pudesse ser amiga de uma pessoa como aquela. Não fazia sentido. Mas o que me preocupou bastante foi a mensagem subliminar que aquele determinado ato, de seguir o perfil da amiga apoiadora, havia passado para uma grande maioria de pessoas. Não preciso nem dizer que a internet estava um caos e o Twitter era terra de ninguém. A loucura era tanta que fã clube fez pausa em suas atividades, pessoas deram unfollow em todas as redes sociais nos perfis oficiais da cantora e todos queriam e precisavam de um pronunciamento oficial. E quando ele veio, só fez piorar o que já não era muito bom. Além de não trazer a tão desejada hashtag que todos esperavam, o texto só relembrava quem a cantora era como pessoa e listava tudo aquilo que ela não apoiava. E eu sabia daquilo, inúmeros fãs também. Mas não fazia muito sentido ela ser contra homofobia, racismo, transfobia e uma série de outras coisas e não querer ser, declaradamente, contra esse candidato.

“Ela não queria revelar o voto dela”, posso ouvir algumas pessoas dizendo. Mas ser contra, neste momento e nesse caso em específico, não é apoiar determinado partido ou candidato. Francamente, essa linha de pensamento não tem lógica alguma. Na realidade, nada estava fazendo muito sentido na última quinta-feira. De repente eu me via dando unfollow na última pessoa que havia imaginado, e aquilo, surpreendentemente, estava doendo. Eu me sentia traído. Como era possível ter me enganado esse tempo todo? Como poderia gostar e torcer tanto por alguém que escolhe não querer se pronunciar em apoio a quem sempre a apoiou? Cara, ELA FOI UM DOS DESTAQUES DA PARADA GAY DE SÃO PAULO, PORRA! 

Com esse sentimento de traição é que fui dormir. Mas ao longo da sexta-feira passei para o próximo estágio: a raiva! Como o número de críticas continuou crescendo, Anitta fez um vídeo afirmando que não votaria em candidato que pregava ódio e preconceito, mas fez isso sem citar nomes ou a #EleNão. Você pode se perguntar: qual o motivo de se ser tão obcecado pelo uso da bendita hashtag? A resposta é simples. Alguns apoiadores desse ser que quer ser presidente deste país dizem exatamente essa mesma coisa. Que ele não é nada disso que ele é chamado e facilmente comprovado com inúmeros vídeos nas redes sociais. Fora que a gente precisava que fosse dito, claramente, que ela não estava do lado dele. 

Só que enquanto Anitta não se decidia no que fazer, parte de seu público já havia rachado. Alguns boicotes à sua música começavam a nascer em baladas cariocas e também de outros estados. Ao mesmo tempo que ela virava o símbolo da decepção, a ficha caia para quem é LGBTQ+: não se pode eleger alguém de fora, que não saiba o que é ser representando por alguma dessas letras, como "rei" ou "rainha" do movimento. Temos tantos cantores, cantoras, artistas maravilhosos que são assumidamente LGBTQ+. Não é preciso procurar fora por um representante.

A culpa, nesse caso, não foi de Anitta por receber o título de "rainha" dos LGBTQ+, mas foi nossa por permitir isso. Havíamos colocado sobre o ombro dela mais bandeiras do que ela poderia carregar. Erro nosso por ter feito isso, mas também erro dela por ter aceitado. Mas vinda de um gueto e sendo orgulhosa disso, Anitta foi colocada em alguns patamares. Ela acabou virando, querendo ou não, porta-voz dos “humilhados” que buscam, incessantemente, a aprovação brasileira. 

Mas no domingo, meu amor, o checkmate veio, e não foi pelas mãos da “poderosa”. Daniela Mercury aproveitou que o movimento #EleNão estava crescendo mais e mais e irá se reunir no próximo sábado, 29/9, em várias capitais do país, para desafiar Anitta a gravar um vídeo apoiando o movimento. Preciso dizer o quanto a internet explodiu? Se antes Anita recebia uma chuva de questionamentos, com o vídeo isso só piorou. 

E assim, Anitta, após ser desafiada por Daniela Mercury, disse o #EleNão, repetiu o nome do candidato e reafirmou tudo aquilo que foi dito por ela até então. De brinde ainda jogou na roda Preta Gil, Claudia Leitte e Ivete Sangalo, que também não haviam se manifestado e não estavam sendo cobradas pelo grande público. Nisso, Anitta foi esperta e quis jogar o foco para bem longe dela. 

Hoje é quinta-feira e até o momento que esse texto é escrito nenhuma das três cantoras, desafiadas por Anitta, se manifestou sobre o assunto. Na terça-feira, Ivete e Anitta se encontraram no Prêmio Multishow e não preciso dizer que o clima não era dos melhores. Ivete proferiu palavras enigmáticas. Disse que não é para ninguém duvidar dela e que só coisas boas entram em sua casa. A rainha do axé não chegou nem a fazer uma declaração de apoio para as minorias, o que foi feito por Anitta duas vezes. Ela claramente prefere não se posicionar. E muitos acham que está tudo bem assim, ela tem um lugar acima do bem e do mal. 

A história deste país passa por cantores que tiveram coragem de ir contra a ditadura e retratar nas letras de suas músicas o que era vivido diariamente por inúmeros brasileiros. E hoje, ver artistas tão influentes se calando, como se estivessem querendo salvar só a própria pele, é triste. Muito triste. 

O que mais me decepcionou em tudo isso é que sei dividir bem as coisas. Larissa, por exemplo, tem todo o direito de não manifestar o seu voto e chegar na urna e fazer o que bem entende, incluindo não fazer campanha para nenhum candidato. Só que Anitta, sua outra metade, por toda sua postura desde o início da carreira, não pode ficar calada. Essa se posiciona e defende aqueles que ela sabe que precisam dessa defesa. É tão simples. Não entendo como Larissa não pode ter percebido isso antes. Essa crise não teria existido se uma simples imagem com um simples dizer, #EleNão, tivesse sido publicado em suas redes sociais, sem pressão, sem desafio, só por ela concordar com isso mesmo. 

Ah, sobre minha relação com ela, não sei como estamos. Assumo que voltei a seguí-la no Instagram e no Twitter, mas só. Vou deixar em aprovação nas outras redes. Agora quem precisa de um tempo sou eu.

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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