sexta-feira, 14 de setembro de 2018

As Cinzas e a Memória





Raramente vou até à varanda do meu apartamento, pois detesto sentir aquele frio na barriga e a vertigem provocada pelo medo da altura. Mas naquela noite do início de setembro, resolvi vislumbrar o clarão avermelhado que refletia no céu do Rio de Janeiro, como se fosse uma pintura viva. Naquele momento, o fogo já havia destruído dois séculos de história.

Tenho certeza que, mesmo distante alguns quilômetros, senti o cheiro das cinzas que circulavam pelo ar e aspirei profundamente o máximo que meus pulmões puderam aguentar. Era como se eu tivesse, de alguma forma, guardando dentro de mim, o passado. E o aroma das cinzas perdurou praticamente toda a madrugada. E, lentamente, eu ia inalando aquele cheiro para que essa lembrança ficasse guardada em meu córtex cerebral.

Alguns cheiros me remetem diretamente a lugares longínquos da minha memória. Não sei se isso acontece frequentemente com vocês, mas comigo essa sensação é constante. O cheiro de Fanta Laranja sem gás (sim, isso mesmo) me transporta aos meus cinco anos de idade, isolado em um canto debaixo da sombra de uma árvore, observando outras crianças se divertindo. A imagem é nítida e vem acompanhada de uma grande angústia. As crianças que correm, gritam e gargalham estão com o uniforme que usávamos no jardim de infância. Eu estou sério e triste. E aí o perfume do refrigerante se esvai. 

Cheiro de açúcar queimado me leva diretamente às tardes de domingo ensolaradas na casa da minha avó, assim como queijo derretido. Parque Shangai, algodão doce e pizza no forno. Algumas outras fragrâncias provocam relações mais óbvias como rabanadas sendo fritas no Natal e o cheiro da canjica sendo cozida com o mês frio de junho.

Essa semana eu passei por algum lugar e me deparei com um grupo de moradores de rua que estavam fazendo uma pequena fogueira ao redor para se protegerem do frio. Quando estava um pouco mais adiante, o vento trouxe às minhas narinas a fuligem e imediatamente fui transportado para um local imenso com paredes claras, que ficavam ainda mais radiantes com a entrada dos raios de sol. No meio do salão me vi dentro do olhar de uma criança fascinada observando o esqueleto gigantesco de um titanossauro, que parecia se movimentar lentamente em articulações imaginárias. Em outra sala, milhares de animais conservados em vidros com formol fitavam-me, num silêncio constrangedor e por fim, me desloquei para uma sala dourada e me deparei com o esquife de Sha-Amun-em-su, a “cantora de Amon”, um dos poucos sarcófagos em todo o mundo ainda lacrados, deixado da mesma forma desde o sacerdote que a mumificou há quase 2.800 anos. E quando o cheiro se esvaiu, me vi novamente na realidade.

Não parava de pensar em mais nada depois daquele trágico acidente... Pensava no local como a residência de um rei e dois imperadores... Pensava na resistência de tantas obras que sobreviveram por tantos séculos e que foram destruídos em tão poucas horas... Coleções inteiras, fósseis, tesouros, móveis, múmias, esqueletos de dinossauros e registros históricos que viraram pó, se espalharam pela cidade e entraram na memória de tantos cariocas que respiraram aquelas cinzas, como eu. 

Enquanto caminhava pela rua fria e escura, relembro da imagem na TV de um soldado do corpo de bombeiros caminhando incrédulo sob os escombros e encontrando intacto o meteorito Bendegó, que já havia resistido quando ardeu em chamas há milhares de anos ao entrar em contato com a atmosfera terrestre antes de cair no sertão brasileiro. E relembro também da noite em que inspirei o máximo que pude do ar misturado com as cinzas do passado em minha varanda.

Naquele instante percebo que o registro já tinha se fixado em meu cérebro. O córtex fez o clique e minha memória fez o teletransporte. Não andava mais pela fria calçada de Botafogo... Agora estava maravilhado vislumbrando as paredes brancas iluminadas pela luz do sol que davam vida ao Museu Nacional no parque imperial.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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