segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Issues





Todos temos nossos traumas. Problemas familiares, profissionais ou de relacionamentos. Somos moldados, desde sempre, baseados nas experiências que vivemos. E são normalmente as más experiências aquelas que mais nos marcam. 

Um relacionamento abusivo, uma quebra de confiança, uma infância que não foi nem de longe como as dos comerciais de margarina. É clichê, e eu adoro clichês, mas cada um é que sabe onde aperta o sapato. 

O problema é quando uma experiência ruim nos marca tanto que não conseguimos mais sair daquela espiral e de achar que o mundo inteiro, a partir daquele momento, está contra nós. Se fomos traídos em uma relação, achamos que qualquer nova pessoa também nos trairá. Se fomos magoados, construímos muros intransponíveis e vivemos isolados em um castelo seguro, mas solitários. No fim das contas, somos nós mesmos quem assentamos os tijolos que formam os muros das nossas prisões.

Mas é necessário abrir os olhos e enxergar que as experiências são diferentes. Ao projetar em qualquer nova situação algo já vivido no passado e, assim, não vivê-la completamente com medo de um déjà vu desagradável é o mesmo que viver pela metade. Ou, pior, deixar de viver as delicinhas e novidades que o frescor de uma nova possibilidade poderia nos trazer. 

O medo paralisa, congela e nos torna reféns da nossa própria mente, onde criamos enredos, monstros, vilões e mocinhos. Como numa novela (ruim) de Walcyr Carrasco, os (péssimos) clichês ficam amontoados e formam histórias próprias que só existem no maravilhoso mundo de nossas espirais mentais e desconexas da realidade. 

Que pena que algumas pessoas não se permitem explorar o mundo à sua volta e mantém-se presos a grilhões que ainda estão vivos em sua própria mente; por estarem tão absortos em histórias mal resolvidas do passado, não enxergam que as algemas já foram abertas e que a liberdade é possível e real. 

Penso em um passarinho criado a vida inteira na gaiola que, ao se dar conta da porta da liberdade aberta, não explora o desconhecido por medo do que há no mundo lá fora. E perdem-se as oportunidades e a liberdade tão almejada. 

E assim, vamos vivendo pela metade ou no terreno confortável da nossa própria ilusão, abrindo mão de possibilidades e daquele frio no estômago que só as novas experiências podem nos proporcionar. 

Por medo. Por traumas. Por falta de autoconhecimento. Por falta de coragem.

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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