sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Mais Um Desabafo




Falta pouco menos de dez dias para as eleições que decidirão como o Brasil vai ser governado pelos próximos 4 anos. E nem precisa dizer o quanto estou tenso por esse “evento”. O país está totalmente polarizado e cada dia que passa, o céu está mais e mais nublado. 

O tal “centrão” não funcionou. Marina começou bem mas morreu na praia. Boulos era uma promessa e não deslanchou. Não se ouviu o chamado para o Meirelles e por isso, ele nem saiu do lugar. Daciolo foi o bobo da corte para alegrar os debates. Ciro chegou botando banca mas falou demais, apesar de achar que ele seria um nome bem mais interessante para disputar o segundo turno e tentar apaziguar os ânimos. Alckmin deu uma crescida, mas sua apatia cresceu mais ainda. O tucano deveria ser substituído nos emoticons do WhatsApp que simbolizam aquela cara de tédio; ele é aquela hiena dos desenhos animados que repete o mantra “oh dia, oh azar!”.  Até FHC já se cansou da cara dele!

Não queria que fosse desta forma, mas certamente o segundo turno será decidido entre os dois candidatos mais yin-yang de todos os tempos. Além de opostos, os mais odiados. Haddad nem é tão odiado assim. O cara é bonitão, educado, tem diplomacia e é seguro. O problema dele é o PT. E quando não é o PT, é o PCdoB, onde a chapa fez sua coligação com Manuela D´Avila. PT é o diabo comendo mariola e o PCdoB é o partido onde os integrantes comem as criancinhas. Bolsonaro já é um figuraça. Ninguém nem sabe direito qual é o partido dele e o fanfarrão é uma espécie de Carminha desbocada e Odette Roitmann cuja sua autenticidade e sua capacidade de vociferar asneiras lhe garantiu o passaporte de ir para o segundo turno sem sequer participar de debates.

Nelson Rodrigues, sempre sábio, já dizia que “o brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos o mínimo de auto-estima”. Todo mundo tem criticado o Bolsonaro por ele ser machista, misógino, preconceituoso... Isso a gente já sabe, todo mundo sabe e até os que vão votar nele já sabem. E não ligam pra isso. Qualquer desses termos tão odiosos podem ser encontrados em vários vídeos sem quaisquer edições na internet. Estão lá na rede para quem quiser ver. Se as pessoas tem preguiça de buscar, não sou eu que farei esse trabalho. Mas, essas pessoas também não querem ver, sabe por qual motivo? Porque isso não atinge a eles.

O pior cego é aquele que não quer enxergar o óbvio. O que existe hoje é um ódio mortal da classe média burguesa. Bem que Cazuza já dizia que a burguesia fedia e queria ficar rica. Para ele, “enquanto houvesse burguesia, não haveria poesia”. Outro dia falei isso numa rodinha de amigos e um dos caras de extrema direita disse que Cazuza era um viado escroto mimado e aidético. Eu ri e falei pra ele que o compositor já deveria estar acostumado a ouvir isso pois já compunha algo bem semelhante à sua reação comportamental presente nos versos “te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro pois assim se ganha mais dinheiro”. Virei as costas e saí, pois achei muita escrotidão em um bate papo-cabeça sobre economia e neoliberalismo um otário ter que inserir, de forma pejorativa, a sexualidade de um indivíduo e uma doença tão séria.

Por falar em AIDS, em 2010, durante uma entrevista a Monica Iozzi, Bolsonaro ironizou o tratamento oferecido pelo SUS aos portadores do HIV. “Eles estavam na vida mundana e depois querem cobrar do poder público um tratamento que é caro nessa área aí” (...) “É problema deles” (complementou ao fato de achar que as pessoas não se cuidaram, então a responsabilidade teria que ser exclusivamente do infectado). Essa semana, seu filho vereador, em uma prova de que a babaquice é genética postou em seu Instagram a foto de um performer que simulava um homem sendo torturado, ensanguentado com um saco plástico na cabeça e a hashtag #EleNão. A foto por si só já não tinha me agradado, mas ele fez o favor de cagar ainda mais com o acréscimo infeliz da frase "sobre pais que choram no chuveiro”, na verdade, uma crítica aos homossexuais, cujos pais teriam “vergonha” da orientação sexual dos filhos.

Todo mundo sabe que racismo é crime. Todo mundo sabe que injúria e difamação cabem processos. Todo mundo também conhece um homossexual. Eles estão nas famílias, no ambiente do trabalho, nas igrejas, e todo mundo sabe que homofobia é abominável e o judiciário deveria parar de fazer vista grossa a uma futura lei que a combata. Mas estão pouco se lixando com isso; sabe o porquê? Porque isso não é de interesse deles.

Ninguém leu o projeto dele à presidência e sequer os demais projetos. Isso não interessa. Bolsonaro está na Câmara há quase três décadas. Durante sete vezes consecutivas foi deputado federal Apresentou 190 projetos de lei cada um mais absurdo do que o outro (eu já falei isso aqui... tem projeto de lei para criar o dia do detetive e projeto de lei pra bater palminha depois da apresentação do Hino Nacional). Aprovou dois, eu disse (2), projetos que viraram lei: em 1996 sobre a extensão do prazo para isenção de IPI para bens de informática, e outro de 2016 autorizando a (polêmica) pílula do câncer, mesmo depois da pesquisa ter sido suspensa por não ter comprovado sua eficácia. Mas ninguém sabe disso e nem se importa. Isso não interessa.

Esta semana, em um evento em Uruguaiana no Rio Grande do Sul, seu vice, o General Mourão, criticou o pagamento do 13º salário e o adicional de férias, dizendo que eram como “jabuticabas” pois só existem no Brasil e ainda defendeu uma (nova) reforma trabalhista. Bolsonaro ainda tentou, pelo seu Twitter, desautorizar a merda que o seu vice disse, escrevendo que o mesmo “desconhecia a Constituição”... Mourão ainda citou (e criticou) o pagamento do imposto sindical, extinto na última reforma trabalhista.

As declarações do general (mesmo depois de um puxão de orelhas do chefe) já indicam perfeitamente o caminho que um eventual governo poderia seguir. Eu fico só imaginando os pobres coitados dos assessores que trabalham pra eles. E novamente tem gente que tampa os ouvidos, finge que nem é com eles e ainda faz aquele deboche infantil tapando os ouvidos cantando “lá lá lá lá lá lá... não quero sabeeeeeeer”.

Isso não interessa. Mas vai vendo... Vai vendo...

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

VAGNER GULIVER TORRES disse...

"É hora de se rebelar contra pessoas, líderes e organizações que não respeitam os direitos humanos e perpetuam opressão, discriminação e injustiça a todos" (Madonna, 2014) ❤ #EleNão #EleNunca