quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Fogo, Esse Bem Maldito...





Existe coisa mais destruidora do que o fogo? Pensa bem... Quando você recebeu a notícia de que o Museu Nacional estava em meio a um incêndio e viu as primeiras imagens dele já completamente em chamas, não pensou que dificilmente algo se salvaria? Vamos imaginar que tivesse sido uma inundação, um tsunami (que ali não teria como, por ficar numa pequena colina); ou um terremoto ou furacão (que também não ocorreria ali, porque não temos dessas coisas no Brasil)... Algo teria sido tão devastador quanto o fogo? Certamente alguns deles danificariam (e muito) as estruturas, mas provavelmente não quase por completo o seu acervo.

Ok, vamos nos ater aqui apenas à destruição material. Apenas ao fato de que um incêndio ocorreu. Sem falar em descasos ou dilapidações culturais. Algo é tão destrutivo? O fogo foi uma coisa que a humanidade dominou após muito sacrifício (a maior conquista do ser humano na Pré-História) e que, até hoje, tão qual nossos instintos mais primitivos, quando perdemos o controle é capaz de nos aniquilar. E levar coisas muito além da matéria com ele...

Com o fogo, melhoramos a nossa caça e a nossa alimentação; fizemos tochas para iluminação noturna; afastamos predadores; sobrevivemos a épocas congelantes e enfrentamos o frio letal para avançar em outras fronteiras. É um dos responsáveis diretos pelo grau de desenvolvimento da humanidade, já que por meio dele forjamos e manufaturamos muitas coisas essenciais hoje em dia. Também, infelizmente, criamos armas e bombas tendo o fogo como base. Destruidor e renovador como ele, acho difícil de encontrar.

O incêndio do Museu Nacional é maior tragédia material e imaterial que eu já presenciei, sem vitimar ninguém a não ser a nossa História, a nossa Cultura e a nossa Pesquisa. Lembro-me do dia em que acordei e vi o fogo na Boate Kiss, no Rio Grande do Sul, e o meu choque era pela morte daquelas pessoas, não pela Boate. Também me recordo do incêndio no Museu da Língua Portuguesa, onde estive anos antes, mas lá doeu mais pela arquitetura da Estação da Luz, pois o acervo que era todo digitalizado foi salvo.

Outra lembrança forte que eu tive por crescer em Niterói foi do incêndio criminoso do Gran Circo Norte-Americano, até hoje a maior tragédia coletiva brasileira, com mais de 500 mortos e 800 feridos, sem contar os animais. Foram tantos cadáveres que foi necessário abrir um cemitério novo na cidade vizinha de São Gonçalo para enterrá-los, pois não havia estrutura na cidade. Isso se deu em 17 de dezembro de 1961, um dia após minha mãe completar quatro anos de idade. Era para ter sido o programa de comemoração da família, mas uma visita da madrinha da minha mãe acabou adiando a festa e poupou a vida da minha mãe, meus tios e avós (e, consequentemente, a minha). O fogo, ateado por vingança, foi impiedoso e lambeu a lona de nylon em segundos... Mas, mais uma vez, aqui a dor maior foram as mortes. Não a partida de um circo que nunca mais vai voltar, como o nosso Museu.

Eu fui ao Museu Nacional quando era criança. A última vez que estive lá foi pouco mais de um ano atrás, com amigos paulistas. Chegamos a entrar e ver o Meteorito do Bendegó. Fomos alertados que havia algumas alas fechadas e que nem tudo poderia ser visto. Acabamos optando por ir ao Museu do Amanhã, que rendeu uma coluna aqui no Barba Feita até. Fizemos, naquele dia, como muitos criticados agora: ficamos mais preocupados com o futuro e deixamos o passado para lá... Fica a sensação de que poderia ter me despedido melhor daquele Museu que, mesmo tendo sua estrutura reconstruída (provavelmente agora com mais segurança, investimentos e sistema de proteção contra incêndios) e um novo acervo, nunca mais será o mesmo. Ainda que já vivendo o seu ocaso, com interdições por desabamento de reboco e cupins.

Eu estava voltando para casa quando vi um carro de bombeiro passando com a sirene acesa e uma aeronave sobrevoando a área, mas não tinha noção da magnitude. Fiquei sabendo do incêndio pelas redes sociais e liguei a TV. Doeu ver aquelas chamas nas imagens. Era a certeza de que praticamente nada se salvaria. Como moro em um bairro vizinho, meu quintal amanheceu coberto de fuligem. Cinzas com significado.

Tomara que, tal como na mitologia, aquilo que morreu com o fogo no Museu Nacional saiba renascer das cinzas, ainda que com outra roupagem, para se tornar ainda mais forte do que foi um dia. E que o fogo, destruidor que ele só, possa também ser sinal de renovação.

Ah, se liga, o Barba Feita agora está no Instagram!
Segue a gente lá:

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: