terça-feira, 4 de setembro de 2018

O Fogo Que Consome a Cultura, a Educação, o Passado e o Futuro




Pouco tempo atrás, escrevi em minhas redes sociais que considerava o povo brasileiro sem cultura. E fui atacado (para variar) por algumas pessoas me esclarecendo que eu estava errado, puxando minhas orelhas com as descrições técnicas da minha expressão. Mas dentro desse contexto, e para que eu não sofra represálias - pelo menos nesse sentido - esclareço que, cultura, resumidamente falando, significa um complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membro.

Mas, não sou estudioso, nem cientista sobre a maioria dos assuntos que escrevo. Sou um indivíduo que escreve sentimentos. Um cidadão. Um ser humano com vontades e percepções próprias. Que podem ser erradas ou equivocadas para uns, porém com um discurso objeto de identificação para outros. 

A minha forma de ver a cultura - na verdade, a vida como um todo - é com o coração e desprendido de dogmas, que até são importantes e necessários, mas não imprescindíveis para mim. É claro que nesse cenário não se enquadram condutas condenáveis criminalmente, mas, moralmente por vezes, a depender de quem ouve e lê minhas convicções. Isso é normal, porque cada um tem as suas. 

Mas, voltando sobre o assunto cultura, a minha visão lírica continua sendo a mesma. O Brasil é um país sem cultura. Se fizermos um paralelo utilizando algumas palavras da descrição técnica, que meus conhecidos tanto martelaram em minha cabeça, aos poucos estamos perdendo nossa história, nossa moral, nosso conhecimento, nossa arte e tudo aquilo que construiu nossa tradição por meio desses registros históricos e consuetudinários. 

O capítulo mais recente e talvez um dos mais dolorosos, escreveu-se no último domingo, 02 de setembro, com o incêndio no Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Curiosamente, o mesmo dia em que a princesa Leopoldina, em regência interina no lugar de seu esposo D. Pedro, convocou uma sessão extraordinária do Conselho de Estado em 1822 e, juntamente com os ministros, decidiu pela separação definitiva entre Brasil e Portugal, assinando então a Declaração de Independência, mas que ficou popularizada mesmo no dia 7 de setembro com o famoso “Grito do Ipiranga”, proclamado por seu marido. 

Mas essas minúcias não se aprendem na escola. Ou quando sim, num an-passam quase imperceptível, pois o mais importante é o feriadão da Independência. Não se faz um país sem educação e sem apoio à cultura. E escola e cultura não são comércios, embora muitas das vezes sejam tratados como tal. O “acidente” com o Museu Nacional é a prova de falta de interesse do poder público para isso. Enquanto os estados e o país apresentam dívidas imensuráveis dos cofres públicos, decorrentes de corrupção e nossos líderes não deixam de votar os aumentos salariais e benefícios para seu poderio, nossas universidades, hospitais e outros tantos museus, afundam-se com descaso e abandono. Hoje nós perdemos feio para países destroçados pela guerra, como Alemanha, Japão, Coreia e China. Eles se reergueram por causa da educação e da real valorização de sua história e cultura e, por isso, nos superaram em eficiência, tecnologia e avanços. Nossa estratégia envereda por atrair jovens para escolas risonhas e francas pelo jocoso, por jogos que desvalorizam nossa história, nunca mostrando a verdade: se você não estudar, não ler, não aprender, vai ser pouco ou nada na vida, vai depender da sorte. E os países acima não investiram na sorte, investiram na preparação séria, suada e disciplinada.

E nós? Continuamos na mesma, enredados em acordos ortográficos e outras firulas, que não agregam em nada. Falamos em reforma na educação e nunca em uma revolução pela educação. Não se faz educação deixando alunos sem aula, professores sem preparo e professores preparados sem remuneração. Não se faz cultura e nem se perpetua seus conceitos, se não temos incentivo e patrocínio para isso. Patrocínio este que deveria ser custeado em boa parte pelos impostos caríssimos que pagamos. O que vemos na realidade são manobras infinitas de um governo cancerígeno, em todas as suas esferas, para que tenhamos um acesso cada vez mais limitado de informações e história. E isso é para que, futuramente, quando estivermos imersos na lama do desconhecimento (e sem a tal cultura da descrição técnica), eles estejam curtindo jantares com bandanas feitas de guardanapos em países que pregaram por toda a sua história e, por isso, considerados evoluídos e proporcionando uma vida de adequada qualidade para seus cidadãos, a sua verdadeira cultura.  


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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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