sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Ovo da Serpente





Hoje eu queria ser curto e grosso. Em um pedido quase agonizante, gostaria muito que lessem esse texto até o final, torcendo para que possa ter conseguido deixar uma pequena pausa para reflexão. Infelizmente, poucas pessoas leem “textões” nas redes sociais, pois os “tempos líquidos” do filósofo Bauman definitivamente já se instalaram em nossas vidas. Não temos tempo para mais nada. Chronos nos consome. As reuniões com os amigos se tornam mais raras e vivemos a “celebração de nossa desunião”, como já dizia o mestre Renato Russo.

Estamos mergulhados em uma grande crise existencial. E não estou falando somente de nós, brasileiros. O mundo está assim, imerso em uma grande crise social agravada pelo declínio do poder político. A humanidade segue, autômata e solitária, sem muita perspectiva para o futuro. E isso é muito assustador, pois gera em cada um de nós uma angústia abissal. Temos medo da fome, da violência e de uma neurose que nos persegue dia e noite. Assim como naqueles joguinhos de vídeo-game, passamos de fase assim que chegamos sãos e salvos no aconchego de nossas casas para novamente recarregar nossa vida e dar o restart ao jogo para o dia seguinte. É como se vivêssemos em um grande looping, encapsulados dentro de nossas próprias inquietudes.

Nossa sociedade, especificamente, é individualista. Sim, nós somos muito egoístas. E hoje, estamos vivenciando uma grande polarização onde o ódio prevalece. Me deixa muito triste abrir uma rede social como o Facebook, por exemplo, e checar na timeline os argumentos irônico-violentos de amigos digladiando-se entre si como se a opinião de ambos fosse a própria verdade absoluta. Na verdade é. Mas é algo muito individual.

Minha mãe me ensinou uma coisa que eu nunca esqueci pra vida. “Se ponha no lugar dos outros. Não faça com ninguém o que você não gostaria para si mesmo”. E desde então tenho seguido isso. Já errei? Mas é claro! Errei e continuo errando. Não sou nenhum exemplo de perfeição e nem faço questão de ser. Mas sempre que cometo algum ato falho, tento corrigí-lo ou não repeti-lo. E isso está presente na cautela que tenho no jeito de falar e de escrever, sempre estando aberto ao diálogo. Mas confesso que nos dias de hoje, tudo está me exaurindo. Por repetidas vezes tenho preferido o silêncio ao invés de iniciar um debate. Mas, ainda com um sopro de confiança e um quê de atrevimento, a ficha cai e percebo que se deixo dessa forma, não seria verdadeiro comigo mesmo.

É óbvio que cada um de nós possui suas crenças e suas convicções e em momento algum devemos deixar de acreditar nelas. Mas gostaria de sugerir que as pessoas duvidassem de tudo. A vida e o jornalismo me ensinaram isso. Questionem, pesquisem e tirem as suas conclusões. Não trate tudo como uma verdade absoluta, pois isso é pura utopia. Ouçam a história. Ela é cíclica. E ela se repete.

Na Alemanha Nazista da década de 1930, havia um ambiente de caos. Havia gente faminta pelas ruas, superinflação e desemprego. Havia um grande descontentamento da população com a violência urbana e uma sugestão de armamento. E foi nesse ambiente que com seu poder absoluto e autoritário, Hitler encontrou uma forma de sua voz reverberar entre a população, que o endeusou, apática e insensível aos seus métodos implacáveis e violentos disfarçado em um discurso patriótico. Para eles, o ditador era o sinônimo de libertação. Mas quem fez a o regime nascer foi o próprio povo, que tinha, em sua figura, uma síntese de seus próprios princípios e o enxergavam como o “salvador” de todos os problemas.

O nazi-fascismo de Hitler perseguiu e matou judeus, negros, ciganos, homossexuais e qualquer indivíduo que fosse contra ao seu regime e foi totalmente apoiado por uma sociedade que hoje, se envergonha de todo o passado. Essa história já sabemos de cor e salteado... Mas muitas vezes tenho a impressão que as pessoas se esqueceram dela da mesma forma que se esqueceram do período ditatorial que o Brasil enfrentou por 21 anos! Tem gente que diz por aí que o que aconteceu por aqui foi muito leve e isso revela o quanto a mente das pessoas é doentia. 

Existe um filme sensacional que eu amo, do diretor sueco Ingmar Bergman, chamado O Ovo da Serpente, de 1977, e que retrata os conflitos, agressões e a desordem que antecederam ao surgimento e ascensão do nazismo através do “envenenamento” que, aos poucos, foi-se instaurando na cabeça dos alemães. Exatamente naquele ambiente de descontentamento e o apontamento dos grupos que supostamente eram os causadores de todo o risco de degeneração, medo e caos que o mal começou a tomar forma. Ali desenhava-se o animal peçonhento sendo gerado.

A atualidade já nos revelou Donald Trump sendo aplaudido após discursos nazi-fascistas e a demagogia no Brasil segue o mesmo rumo. Infelizmente, nossa sociedade tem sim, um pensamento machista, preconceituoso e individualista. O que não é a favor das ideias é obrigatoriamente contra. Não há um meio-termo. E não há espaço para debatermos exatamente este meio termo. Ou dá, ou desce. Ou é ou não é. E se você não concorda, é provavelmente um comunista ameaçador. Um comedor de criancinhas. Um artista maconheiro, viado e pedófilo. Um marginal que foi criado pela mãe ou pela avó. Em pleno século XXI, fico chocado em ver uma sociedade aplaudindo declarações como a “carta branca” para policiais matarem em serviço (alguém já parou para pensar nas consequências ainda mais desastrosas que podem ainda acontecer?); apologia a torturadores e ao armamento e ainda o apoio à declarações misóginas, machistas e preconceituosas. 

Nossos governantes são um reflexo do que somos. Se não foi por um golpe, só existe uma forma deles entrarem no poder: por intermédio de nós mesmos. E só há uma única forma de nos salvarmos da picada da serpente: aprendendo a conviver com o outro e fazendo-se valer o velho ensinamento de se pôr no lugar do próximo. Mesmo que ele tenha ideias totalmente diferente das suas, é através da democracia que temos o ambiente compatível para o debate e o respeito, nos afastando do sentimento egoísta e do medo que só faz nos envenenar. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Fabiano Alvares disse...

Excelente texto. Não cabe só uma reflexão, mas também uma mudança de posturas.👏👏👏👏👏👏👏