quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Pippin: Uma Metáfora do Palco Para a Vida




No último sábado, fui novamente ao teatro. Eu sei, ando muito cultural... Nas últimas semanas, já escrevi coluna sobre uma peça e sobre um filme aqui no Barba Feita. Mas Pippin, de Charles Möeller e Claudio Botelho, espetáculo que saboreei mais recentemente, não poderia ser ignorado. Foi uma das melhores surpresas que tive no teatro na vida – e não era porque a expectativa era baixa... 

Não conhecia a história de Pippin a fundo, havia apenas visto um trailer dele no Youtube enviado por meu companheiro. O musical reestreou na Broadway um ano depois de eu ter ido a Nova York e já saiu de cartaz por lá. No Brasil, a montagem está no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, Rio de Janeiro – um espaço que não é tão grande e fica até estranho um espetáculo tão grandioso num palco relativamente pequeno. E a produção encontrou soluções bastante eficientes para as limitações do espaço. 

O espetáculo tem dois protagonistas, que destoam de todos os demais personagens (isso não é uma crítica, é um artifício adotado positivamente): o homem do título, Pippin, um príncipe que volta ao seu reino após estudar fora; e a mestre de cerimônias, que conduz toda a narrativa. A ligação dos dois vai se mostrar maior ainda ao fim.. Pippin é vivido por Felipe de Carolis, que também é produtor do espetáculo e tem uma carreira reconhecida no meio musical brasileiro – porém, na minha opinião (e na de muita gente que o assistiu em palco), é o mais fraco entre os principais. Seu jeito de cantar, com um vibrato típico de duplas sertanejas, e variações agudas um pouco desnecessárias, me incomodou em alguns momentos... Já a mestre de cerimônias é interpretada por uma genial e cheia de energia Totia Meirelles, que canta perfeitamente do início ao fim e dança com uma jovialidade que faz você não acreditar que ela fará 60 anos em menos de um mês. 

No elenco, ainda estão um inspirado e afinado Jonas Bloch como Carlos Magno, pai de Pippin; Adriana Garambone, brilhante e engraçadíssima, como Fastrada, a madrasta; Nicette Bruno como Berthe, a avó conselheira (mas quando assisti, foi substituída por Analu Pimenta, que defendeu a personagem muito bem, mas não convence como uma velhinha); Guilherme Logullo, como Lewis, meio-irmão de Pippin, que também está no tom exato de humor e afetação; além de Catharina (Cristiana Pompeo) e Theo (Luiz Felipe Mello), dois personagens engraçadíssimos e genialmente interpretados, que entram no segundo ato e mudam completamente a história. E tem também uma trupe de atores performáticos de musicais extremamente competentes e perfeccionistas em suas execuções - um deles, Rodrigo Cirne, irmão de um grande amigo meu. 

A trama é basicamente a seguinte: Pippin volta ao seu reino (de moletom e jeans, o que o difere totalmente dos outros personagens – e depois se percebe por quê) e busca se aproximar do pai, o Rei Carlos Magno. Sua madrasta tem outros planos para o trono e arma para que as coisas se desenhem como ela deseja. Por outro lado, Pippin começa a ouvir os anseios da população e experimenta a realidade dos plebeus, fazendo um paralelo entre a magia e a beleza da realeza e a simplicidade e a monotonia da vida real. Uma busca eterna pelo “extraordinário” em nossas vidas que, muitas das vezes, só nos leva a ansiedade e depressão. E uma expectativa por um final “que nunca apagaremos de nossas memórias”, como é anunciado pela mestre de cerimônias. 

Com números circenses, texto politicamente incorreto (inclusive com termos chulos e engraçadinhos), referências à realidade brasileira e uma discussão necessária sobre o que queremos e fazemos de nossas vidas, Pippin tem um final que, realmente, foi umas das coisas mais emblemáticas que meus olhos viram em um teatro. Fiquei inteiramente arrepiado, com os olhos marejados e arrebatado. 

Em alguns momentos, é possível que a gente se pergunte: “Mas pra onde essa história vai?”. Quando fica claro, a gente, na verdade, se pergunta: “Como eu não notei essa metáfora antes...?”. Vale a pena correr pro teatro, pessoal. Está no Teatro Clara Nunes, de quinta a domingo, até o dia 21/10.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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