sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Terra à Vista!




Há uma canção do Titãs que pouca gente conhece mas eu adoro.  Ela está presente em um dos discos mais recentes da banda (o ótimo Nhengatu), se chama Terra à Vista e narra em versos tropicalistas e folclóricos toda a mistura no liquidificador da cultura brasileira.

“Terra à vista! / Tem palmeiras, sabiás, mulatas ainda não / tem pau-brasil a dar com o pau / como dizia Cabral / tem coqueiro que dá côco / tem mangueira que dá caju e tem Popó do Maculelê / tem caça, cabaça, cachaça, trapaça / mordaça, arruaça, vidraça / desgraça, raça, pirraça / caça, cabaça e cachaça / mordaça, arruaça, vidraça / desgraça, raça, pirraça / e índia cheia de graça”.

Aprendi na escola o que o governo ditatorial gostaria que eu aprendesse.  Me ensinaram a história romântica de Cabral se perdendo no meio do oceano e desembarcando em terras desconhecidas, com belas índias virgens dos lábios de mel.  Esconderam-me todo o lado podre dos interesses e corrupção que existe desde 1500 e que transformou esse Brasil em um país misógino e preconceituoso.  E esse outro lado só fui descobrir após ler Gilberto Freyre.  O tijolão Casa-Grande Senzala ocupou durante muito tempo minha cabeceira e minha autocrítica.   

Na minha época infanto-juvenil, meus cadernos eram encapados com plástico transparente azul pois não podíamos esconder, no verso, o Hino Nacional ou o Hino à Bandeira.  Não tinha caderno com capa de Hello Kitty, Garfield ou imagens de guitarras multicoloridas.  Se você era diferente, certamente era ridicularizado.  Vivíamos uma espécie de adestramento burocrático e opressor, sem exercitar a sensibilidade, tal qual os alunos no filme musical Pink Floyd, The Wall, sem rosto, padronizados e marchando em fila até caírem em um grande moedor de carne.

Talvez, se minha geração tivesse sido mais autônoma, certamente seria mais crítica e enxergaria além do óbvio.  Vim de uma geração que praticamente foi inerte na política.  Uma geração que entendeu a redemocratização como um grande oba-oba; um eterno Cassino do Chacrinha com dançarinas e um maiô atochado.  Confundiram liberdade de expressão com zona e demoraram muito para poder reivindicar os seus tantos direitos previstos na Constituição concebida após 21 anos de ditadura militar. 

Esse mês comemoraremos 30 anos da aprovação da Constituição Cidadã e, infelizmente, o que vejo a cada dia é um retrocesso àqueles anos de chumbo anteriores à abertura política.  Há algumas semanas estava discutindo com alguns amigos a questão política brasileira.  Confesso que ultimamente venho debatendo bastante esse tema, seja em chás-de-bebê, aniversários, barzinhos, trabalho etc e tal.  Felizmente, as conversas tem sido sempre respeitosas, pois, entendo que o processo democrático existe exatamente para isso: respeitarmos as ideias, mesmo que sejam completamente divergentes às nossas.

Venho de uma família de militares, nasci em época ditatorial de Geisel e vivi na pele o horror que foi esse período. E atualmente a população tem defendido muito o retorno do militarismo (leia-se ditadura) por impor a tal "ordem" descrita na bandeira.  Para estas pessoas, nunca existiu corrupção dentro do meio militar.  Não conseguem compreender que toda a fachada era totalmente bloqueada pelo sistema.  Inexistia a possibilidade de estarmos como estamos agora, aqui, discutindo esse assunto publicamente.

Na mesma semana, outra amiga, defensora de Bolsonaro, reclamava que no passado não existia tanto essa questão de lutas de classes, divisão de raças e opções sexuais.  E novamente vi o quanto Gilberto Freyre ainda continua atual.  Aliás, Freyre e Maquiavel nunca estiveram tão na moda!  Deveriam estar debaixo do braço de cada brasileiro.  Estava dialogando com ela que esse embate social sempre existiu!  Só que antigamente, essas “minorias” que alguns candidatos querem que novamente se curvem, não possuíam voz. 

Dados do IBGE apontam um crescimento da população negra/parda. Houve miscigenação? Claro! Mas principalmente, eles tiveram coragem de se declarar negros/pardos! Isso não acontecia há 20 anos atrás! Em relação aos gays/héteros, obviamente as agressões e mortes sempre existiram, só que hoje incomodam muito mais pois os gays que eram sempre marginalizados, ganharam status em vários degraus. 

Há 20, 30 anos atrás, gays assumidos nunca podiam ter cargos de destaque em uma empresa.  Ou você conheceu algum sendo diretor de alguma empresa? Gays assumidos sempre eram estilistas ou cabeleireiros.  Não existia um gay motorista de ônibus, um gay empresário, um gay artista que não fosse afetado.  Ou seja, eles existiam, mas viviam no armário. O surgimento da AIDS foi o primeiro fato para fazer com que os gays assumissem os seus papeis... Atores hollywoodianos "machões" e galãs globais assumiram a homossexualidade... Rock Hudson, Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury, Lauro Corona, entre tantos outros.   Por isso não se discutia essa “divisão”. Não existia voz para gays não assumidos.  Ou ricos e pobres... Ou brancos e negros.

E quem propôs essa “divisão”?  O governo?  Claro que não! O que o governo fez (e precisa continuar fazendo) foi propor políticas públicas para as mulheres, os negros, os gays... Quem propôs essa divisão fomos todos nós.  Nós e nossos preconceitos enraizados desde 1500.   Nós e os preconceitos obscuros de quem tem ódio de dois pais que cuidam de uma criança.  Do jovem negro da comunidade que tem acesso garantido a uma universidade onde 90% é branca e rica.  Do diretor supercompetente que vive com seu companheiro.  Da mulher que comanda um grupo de homens em uma multinacional.

Aqui, a miscigenação tomou conta.  Ainda existem palmeiras e sabiás, mas pau-brasil sobraram poucos.  Tem coqueiro que dá côco e, se duvidar, até mangueira que dá caju.  E tem Popó do Maculelê.  Ah, mas ainda tem muita caça, cabaça, cachaça, trapaça, mordaça, arruaça e desgraça.  Pouca coisa mudou.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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