quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Tudo Sobre Meu Olhar - E o Que Mudou Nele




O ano era 1999 e eu dava os primeiros passos como cinéfilo, num hobby que havia se tornado mais frequente dois anos antes e teve seu ápice em 2004, quando fui 90 vezes ao cinema em um ano. Eu e meu melhor amigo de infância, Felipe, íamos ao extinto Art Plaza, no maior shopping de Niterói, como havíamos ido tantas outras vezes para assistirmos a algum sucesso de Hollywood. Mas o programa era diferente dessa vez: o filme era assinado por Pedro Almodóvar. 

O título era Tudo Sobre Minha Mãe e mudou completamente o meu olhar sobre cinema. Nota: eu já havia assistido a Carne Trêmula antes, ainda adolescente, e não entendi muito do filme, embora não tivesse desgostado. Tudo Sobre Minha Mãe é até hoje o meu favorito de Almodóvar (sorry, Fale com Ela) e um dos meus filmes favoritos da vida. Por conta dele, passei a conhecer mais de Pedro Almodóvar (um dos meus cineastas preferidos, do qual tenho quase todas as obras em casa), do cinema espanhol (também um dos que mais gosto entre todos no mundo) e dos filmes mais artísticos e menos comerciais. Isso acabou me rendendo profundos mergulhos no Festival do Rio e outras mostras e nas salas do Grupo Estação, em especial as que ficavam em Botafogo (principalmente o antigo “Espaço Unibanco”). 

Tenho plena convicção de que Tudo Sobre Minha Mãe mudou o meu olhar sobre não só o que eu queria assistir, mas, também, sobre o que eu queria consumir artisticamente e, principalmente, sobre o que eu queria produzir. Não tenho dúvidas de que, além de influências literárias, minha escrita também traz doses de cineastas como Almodóvar e Tarantino. 

Falando em influências literárias, já mencionei aqui antes como o conto Venha ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles, foi o que acabou me instigando a escrever contos também (rendeu, inclusive, uma homenagem aqui no Barba Feita no ano passado). Mas, em relação a romances, foi Capitães da Areia, de Jorge Amado, que me despertou o amor pelos livros, em 1998. Até então, havia lido mais obras infantis ou aquelas obrigatórias do colégio na adolescência. Capitães da Areia começou assim: era uma leitura da escola, mas fui alertado pela minha mãe que era um dos livros que ela mais tinha gostado na vida. Conhecer Pedro Bala e sua trupe de marginais baianos foi uma grande paixão e, embora eu tenha amado diversos outros livros que li na vida, ainda coloco Capitães da Areia numa categoria hors-concours

Tantos outros filmes e livros ainda me marcaram... Titanic, por exemplo, foi uma febre para mim e me fez gostar de grandes dramas e de cinema-catástrofe numa época; Pânico me fez explorar o mundo dos filmes de terror com serial killer; Um Lugar Chamado Notting Hill me mostrou uma boa comédia-dramática; e o próprio Tarantino abriu meus olhos para um humor sarcástico que beirava o absurdo. No campo literário, Quatro Estações e Saco de Ossos, de Stephen King (autor de quem eu mais tenho livros) me marcaram no campo do suspense e do terror; Harry Potter, na literatura de fantasia; e O Cortiço é um dos meu prediletos entre os clássicos brasileiros.

Poucas são as vezes em que conseguimos ter a certeza de que estivemos diante de um acontecimento que mudou o nosso olhar sobre não só os nossos gostos, mas sobre a vida. Aquele dia em 1999 foi um desses, assim como em 1998 quando conheci Jorge Amado. E agradeço profundamente ao destino por ter tido essa oportunidade.

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    Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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