quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Ainda Somos os Mesmos?




O Dia das Crianças passou e, com ele, vieram à tona aquelas lembranças de fotos de infância. Recuperei algumas com parte dos meus primos, de quando éramos bem pequenos, no máximo quatro anos de idade. Além da graça de fazer a comparação, trinta anos depois, com as nossas feições e até com as novas gerações – os meus sobrinhos e as filhas da minha prima – uma coisa me chamou muito a atenção: ver que valores nós carregamos ao longo dessas décadas e como nos tornamos mais parecidos do que o laço sanguíneo poderia sugerir. 

Hoje em dia, aquelas cinco crianças da foto temos posições muito parecidas a respeito de política, direitos humanos e até mesmo religiosidade. Minha irmã Natalia é uma intransigente defensora das mulheres, negros e população LGBT. Assim como minha prima Marcela, duas das maiores feministas que eu conheço no dia-a-dia – Marcela ainda tem um papel mega importante: também combate diariamente a gordofobia. Ambas são mães de meninas e olham com preocupação o mundo que elas vão enfrentar, algo que as gerações anteriores não se preocupavam muito – afinal, era comum apenas repetir o padrão subserviente feminino. 

Eu e outro primo na foto nos descobrimos gays. Ele, com muito mais sofrimento e tempo para poder assumir isso interna e externamente. Hoje em dia, também é uma pessoa feliz consigo mesmo, casado e morador de Nova York. Mesmo à distância, acompanha a situação no Brasil e faz a sua defesa daquilo que acha melhor para o país e os que aqui estão – inclusive nós, sua família. 

O mais novinho é o Diogo. Ficou muito tempo afastado dos parentes paternos por causa da separação de sua mãe e meu tio. Na adolescência nos reencontramos e hoje dá um baita orgulho ver que o caçula desse grupo aí (ele ainda tem dois irmãos mais novos, mas que são praticamente de outra geração) se tornou um professor de História com H maiúsculo. Não deixa passar no seu Facebook, por exemplo, os famosos “esquecimentos” dos brasileiros. Nem mesmo de dentro da família. 

Isso tem, inclusive, nos custado alguns desgastes com parentes. Em tempos de eleição, de extravasamento de opiniões raivosas e de falta de empatia, ainda que consanguínea, equilibrar as relações familiares não tem sido fácil... 

Olho para essas fotos hoje e vejo, mais do que nunca, união. Ainda que distantes fisicamente, e longe também da realidade em que a nossa maior preocupação era brincar no quintal da nossa avó, temos muitas ligações naquilo que mais importa: o que nos torna humanos na consciência, não somente no DNA. Que não falhemos em passar esses mesmos valores para a nova geração que aí está ou que ainda vai chegar.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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