segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Balas Juquinha





Depois de nove anos exercendo a mesma função na empresa que trabalho, recebi um convite recentemente e faz três meses que mudei de área. Deixei de fazer algo que eu dominava bem (também, nove anos fazendo a mesma coisa) para encarar um novo desafio, ficando lisonjeado pelo convite, que veio em um momento que tudo que eu queria era mudar e sair de onde eu estava, já que vivia desmotivado e trabalhar estava sendo uma tortura. Com a mudança, as novidades. Um novo andar, novas responsabilidades (incluindo gerenciamento de pessoas, o que me apavorou à primeira vista), novos relacionamentos. E, pelo menos nesses três meses, venho sentindo um frescor e uma alegria que há muito eu não experimentava em minha vida profissional.

Na minha nova gerência, reencontrei algumas pessoas que já trabalharam comigo e que, com essas mudanças corporativas, acabaram buscando novas possibilidades, como eu fiz mais recentemente. E, na equipe de uma grande amiga, há um senhorzinho bastante simpático e que me inspirou a escrever esse texto. Já aposentado há algum tempo, ele continua batendo cartão diariamente, sendo quase que uma figura decorativa do ambiente. Ele é um querido, mas está lá porque foi onde conseguiram alocá-lo.

E esse senhorzinho, sempre tão simpático, faz questão de manter a sua mesa como se fosse um pequeno paraíso de doces delícias no meio de uma grande empresa. Em sua mesa sempre tem embalagens de paçoca, chocolate e doces diversas. Na verdade, recentemente ele foi presenteado com uma miniatura de um baleiro, tipo aqueles bastante comuns em botequins, que vive recheado de balas. E, entre essas balas, sempre tem balas Juquinha. E, preciso confessar, parar na mesa dele tem se tornado uma rotina em minha vida, já que é impossível passar por perto e não se render a roubar uma (ou duas ou três) balas Juquinha que, para mim, tem sabor de infância.

Lembro que, quando criança, eu era um viciado em balas de goma. Meu pai sempre me dava moedas e eu, rapidamente, ia gastá-las num bar da vizinhança. E, entre as balas, eu me empanturrava de jujubas e de balas Juquinha, que eram as minhas favoritas. Engraçado que, apesar de saber que existem vários sabores das balas, eu sempre me lembro das Juquinhas em sua embalagem amarela, no sabor tuti-fruti, que são inclusive as que estão no baleiro da mesa do senhorzinho da minha gerência. Se bobear, acho que nunca sequer experimentei um outro sabor dessas balas.

Tomado por essas lembranças, fiquei curioso e fui pesquisar. E, nessa pesquisa, me surpreendi ao descobrir que a bala Juquinha foi a primeira bala mastigável fabricada no Brasil, tendo começado a sua produção em 1950. E as mesmas ganharam o nome de Juquinha como uma forma de homenagem a um amigo de Carlos Maia, o fundador da Salvador Pescuma Russo & Cia Ltda que, devido ao sucesso das balas Juquinha, mudou de nome posteriormente para Balas Juquinha Indústria e Comércio Ltda.

Entretanto, as balas Juquinha consumidas hoje não são as mesmas de outrora, já que a empresa foi fechada em 2015. Mas a fórmula foi vendida para um empresário carioca e, no mesmo ano, uma bala com o mesmo nome começou a ser fabricada, mas com sua sede no Rio Grande do Sul. Eis a atuação do liberalismo econômico de maneira bastante exemplificada.

Eu realmente não sei dizer se as balas Juquinha de hoje tem o mesmo sabor das que eu experimentava quando era criança. Fiquei muitos anos sem provar as balas e, quando o fiz depois de adulto, minha boca foi tomada por sabor de infância. Pode ser apenas a nostalgia confundindo os meus sentidos, é verdade, mas para mim o sabor é exatamente igual ao das balas que eu consumia na infância. E, no fim das contas, o sabor que realmente me invade hoje quando pego uma bala Juquinha na mesa do senhorzinho do meu trabalho é apenas de nostalgia.

Em um momento em que as pessoas à nossa volta parecem se esquecer do passado (e, principalmente de suas atrocidades), ter uma lembrança doce da minha infância é um acalento. Afinal, se eu cresci em uma democracia e tive a sorte de ter uma infância feliz e uma adolescência e vida adulta em um mundo em constante abertura para o diferente, a perspectiva para o futuro não é das melhores. Que o doce do passado alegre a vida. E que o amargor que o futuro se apresenta possa ser vencido em uma luta diária e cotidiana. Oremos.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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