terça-feira, 9 de outubro de 2018

Candidatos Animais e as Eleições Por Protesto: O Que Há em Comum Entre as Histórias da Rinoceronte Cacareco, do Macaco Tião e de Jair Bolsonaro





Há tempos eleições no Brasil dão o que falar. A instabilidade da pátria em função da péssima prestação do serviço público por aqueles que elegemos para nos representar e nos cuidar, tem cada vez mais nos proporcionado a sensação de estarmos perdidos. Em 1959, um rinoceronte atraiu cerca de 100 mil votos para sua candidatura como vereador na cidade de São Paulo, quando o segundo colocado teve apenas 10 mil. Três décadas depois, era a vez de Macaco Tião, o chimpanzé-celebridade do zoológico do Rio de Janeiro, se tornar um dos candidatos a prefeito mais queridos da população carioca. Agora, vemos um caso clássico, só que numa esfera de poder muito maior e que nos traz maior preocupação: o posto de Presidente da República. Protesto que é piada, ou piada que é protesto?

Olhando de longe, o Brasil, em 1988, vivia um período de relativa euforia política. Decorriam quatro anos do movimento Diretas Já, que culminara, após duas décadas de ditadura, na eleição do primeiro civil à presidência. Decorriam também três anos desde que os prefeitos, antes nomeados pelo estado, voltavam a ser eleitos pelo voto popular. E por fim, o país ganhara uma nova constituição.

Mas a verdade é que o Brasil, naquele ano de 1988, continuava mergulhado num mar de descrença (seria mera coincidência com os dias atuais?). O primeiro civil na presidência era José Sarney, notório colaborador do regime militar, sendo importante ressaltar, que não foi o primeiro eleito, mas herdeiro do cargo em função da morte de Tancredo Neves, que seria, de fato, o Presidente da República. No Rio de Janeiro, o prefeito eleito, Saturnino Braga, acabara de decretar a falência do município. A inflação passara de mil por cento ao ano (mais coincidências com os dias atuais...).

A uma semana das eleições municipais de 1988, o Jornal do Brasil mostrava, a partir de uma pesquisa, que os jovens entre 16 e 18 anos pensavam com “unanimidade quanto à incompetência do governo do presidente José Sarney”. Consideravam o direito ao voto “banal”, “desinteressante”, “discutível”, “inútil” e “dispensável”. O terreno era propício para que surgisse, na miríade de candidatos, um elemento surpresa em busca do voto, por uma brincadeira do grupo Casseta e Planeta.

Este elemento era o macaco Tião.

Como dito antes, o famoso primata não foi o primeiro animal a figurar entre os quadros da política nacional. Em 1959, uma fêmea de rinoceronte chamada Cacareco recebeu estimados 100 mil votos para vereadora de São Paulo. Cacareco ficara famosa um ano antes, durante a inauguração do zoológico, quando o governador Jânio Quadros a definiu, pela popularidade, como “uma forte candidata aos Campos Elíseos”. Esse foi o estopim para que a fofucha estivesse presente nas cédulas eleitorais como uma das favoritas a representar a população de São Paulo.

Brincadeiras à parte, hoje, vejo perplexo para o que evoluiu a política no Brasil. Infelizmente, não como os primatas que pela teoria darwinista se tornaram o que somos hoje, mas para uma selva de pedras habitada por seres intolerantes e talvez mais irracionais do que nossos antepassados. 

Já no século XXI, e saindo do mundo animal para uma breve passada na comédia rasgada, prenunciou-se um novo espetáculo no picadeiro verde e amarelo, quando o palhaço Tiririca foi eleito como um dos mais votados deputados federais em 2010 do estado de São Paulo e, pasmem, sem nenhuma plataforma política. Ouvi muitos amigos defenderem o voto no palhaço, sob a alegação de que o “país e a política já são uma palhaçada mesmo”. Assim como ouço hoje algumas pessoas escolherem o Senhor Jair, que até tem história política, visto ele estar há 27 anos na vida pública, porém sem ações de contundente retorno à fiel população que o reelege insistentemente. 

Vejo essa eleição em 2018, assim como nos anos citados acima, como uma eleição de protesto e não uma eleição de convicções, crenças ou credibilidade. A diferença é que não há mais a graça dos animais ou do palhaço. As pessoas sequer conseguem sustentar um argumento de defesa para seus escolhidos. Ah, perdão! Algumas tem um argumento de defesa: “Fora PT!”. Mas e os outros candidatos? – indago. “Não interessa! Não quero o PT!” e fim, encerra-se a discussão acompanhada, na grande maioria das vezes, de palavras e comportamentos violentos carregados de repúdio.

Realmente, o povo não está preocupado com as reais intenções de quem elege. Pelo menos, não a maioria com quem tive contato. Está preocupado em ter razão nas suas discussões de rede social, ou no chopp do fim-de-semana com os “amigos”. Amigos estes que, talvez a relação de amizade não seja mais importante, se tiverem ideias contrárias às suas. Afinal, o que importa é que seu candidato ganhe, e você diga: “vão ter que nos engolir”

Espero que não nos façam engolir um outro palhaço ou um prefeito bispo que faz de tudo em seu cargo político, menos cumprir a palavra de Deus, tão pregada em seus discursos na época de candidatura, neste caso, na cidade do Rio de Janeiro. Talvez, se tivesse a oportunidade, o macaco Tião teria nos ensinado a rever nossos conceitos de vivermos em sociedade e reiniciarmos um novo processo evolutivo, primando pelo respeito e pelo bem comum, já que nesta existência, estamos fadados ao retrocesso. 
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Fabiano Alvares disse...

👏👏👏👏👏👏👏