segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Eles Simplemente Não Gostam De Quem Verdadeiramente Somos





Em meio ao mar de lama que navegamos, tenho me sentido, muitas vezes, como participante de um reality show de convivência, daqueles bem bizarros, que em determinado momento as pessoas já não conseguem mais segurar o personagem e as máscaras caem. O problema é que não se trata de um reality e que o colega de trabalho, o vizinho, o porteiro, além dos tios e primos (e, às vezes, pais, mães e irmãos) que não conseguem mais viver o personagem não estão interessados em nenhum prêmio milionário. Não, não é isso; os fascistinhas que nos rodeiam querem apenas que você perca o que já conquistou. 

Dei a sorte de crescer em um país livre que, apesar dos seus pesares, vinha experimentando uma onda de abertura e de conquistas que nos embalava. A festa, tão característica do nosso povo, era completa graças à nossa pluralidade e, com o avanço dos direitos de minorias conquistados, sendo estendida a todos. Com o crasso politicamente incorreto sendo banido, nos vimos iludidos de que as pessoas aceitavam as diferenças, afinal, era feio ser racista ou homofóbico e, quando alguém tentava ultrapassar essa barreira era imediatamente enquadrado pela sociedade e opinião pública. O que ninguém percebeu, entretanto, é que sob a superfície cordial de uma nação, era aquecido, em banho maria, um ódio absurdo pela felicidade alheia à volta de todos.

Eu fui enganado por muito tempo. Acreditava mesmo na conversa de pessoas próximas que diziam me aceitar, mas que achavam "exagero" um beijo gay na novela; que não tinham nada contra um casal homossexual, mas que perguntavam em tom solene: "pra que essa necessidade de afrontar a sociedade casando no papel?". Com a grande polêmica no que diz respeito a desfazer amizade nas redes sociais devido a questões políticas , entretanto, me veio o insight. Muito já foi dito sobre o assunto, mas nunca é demais esclarecer: divergência política é uma coisa, falta de empatia e desvio de caráter é outra completamente diferente. 

Apenas para exemplificar, eu me considero um cara de centro-esquerda. Tenho lá minhas implicâncias com o PT, por exemplo, mas sempre me enxerguei mais, inclusive pela minha condição de homem gay, como alguém interessado por políticas que visam o bem estar das minorias e a manutenção de direitos. Mas, apesar disso eu nunca deixei de ser amigo de alguém que fosse de direita ou que votasse no PSDB, por exemplo. Nosso país, essa verdadeira piada, nos fornecia material inclusive para fazer troça de nós mesmos e de quem tivesse uma posição política diferente. Se no PT havia Lula acusado de ser ladrão, por exemplo, o PSDB estava envolvido até o pescoço em escândalos diversos e Aécio, que por algum tempo foi apontado como um grande político e possível novo presidente, nos brindou com histórias de helicópteros cheios de um certo pó, bem diferente daquele que sobe quando você limpa a sua casa empoeirada.

O que veio verdadeiramente à tona nas eleições 2018 não foi a polaridade política a que já estávamos acostumados. O que temos visto diariamente e ganhando força absurda é uma onda de ódio disfarçada de boa intenção. O discurso inicial de que a culpa de todos os males do país vinham do PT e da corrupção exclusiva do partido, principal bandeira do presidenciável B-17, caia por terra quando qualquer pessoa que não fosse um completo idiota pesquisasse um pouco sobre o candidato do PSL. Ou seja, a própria desculpa para colocar Boçalnaro no poder era frágil como a heterossexualidade de muita gente. Mas aceitável para não ficar muito explicitado o real motivo de todo esse movimento: um ódio pelo """diferente""", com muitas aspas, porque há muito a ser explicado por Freud na maior parte das pessoas que se colocam contra gays, negros e mulheres nesse país. 

Bostalnaro deu voz àquilo que muita gente tinha dentro de si mas tinha vergonha de verbalizar. Que se incomodava sim com pobre no aeroporto, com mulher assumindo posição de comando, com gay andando de mãos dadas na rua. O discurso raivoso "contra o PT e à favor da moralidade cristã" liberou aquela senhora simpática que sorria pra você no trabalho pra mostrar-se a escrota que verdadeiramente é; fez os familiares que sempre foram tão legais e acolhedores libertarem-se das amarras sociais e de destilarem veneno e fascismo nas redes sociais; deu passe livre para o que de pior habitava em uma grande parcela de brasileiros que, infelizmente, muitas vezes nem se dão conta de quão equivocados estão.

Sendo bem explícito no que quero dizer, é que grande parte dos eleitores de palhaço extremista que, segundo as pesquisas mais atuais deve ganhar a presidência desse país, pensa é que são melhores que os demais. Que o direito deles é superior ao seu e ao meu. Que a sua/nossa vida não é importante. 

E eu não me engano mais. Não tenho interesse NENHUM em ser amigo de alguém que votou e prega contra a minha existência. Não importa também uma mudança de cenário ou do que pode vir a acontecer nas urnas no dia 28/10: o país está partido e eu sei exatamente de quem eu quero manter distância. 

Se não ficou claro, eu vou ser agora: não, eu também não gosto de você. Pra mim, fascismo é desvio de caráter e se você não gosta de mim pelo que verdadeiramente sou, sinto lhe dizer mas eu não gosto de você por um único e exclusivo motivo: você se tornou alguém detestável e que, tenho fé, será apagado pela história e pela iluminação que há de nos purificar novamente um dia. 

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Christiane disse...

Adorei seu texto e o seu gato branco...RS .... Bjos e todo sucesso do mundo.��