quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O Que Deveria Ser Apenas Ficção





Marta era uma mulher como milhares de outras, talvez milhões. Tinha uma vida de dona de casa, com algum conforto garantido pelo marido, Nicanor, que era dono de uma rede de açougues. Morava em Vila Isabel, bairro de classe média do Rio, com ele e os dois filhos, um casal. Do ponto de vista do dinheiro para o dia-a-dia e até mesmo alguns caprichos, nada lhe faltava: tinha comida à mesa, roupa com certa fartura e de vez em quando ainda conseguia viajar em família. Mas Marta percebeu que não tinha uma coisa e isso começou a lhe incomodar: faltava-lhe a independência. 

Qual não foi a surpresa de Nicanor quando, um dia, a mulher o recebeu em casa com a novidade:

- Querido, fui ver uma vaga de atendente num armarinho, que a Odete me indicou. 

Atordoado, demorou a entender: 

- Vaga? 
- Sim, pra trabalhar lá. – falou, fechando a revista de cruzadinhas que rabiscava. 
- Tu, trabalhar? Pra quê? Eu te sustento. 
- Ora, Nicanor... pra eu me sentir útil fazendo algo que me faça bem. 
- Tu tem que ser útil servindo a tua família. Tu não se sente bem sendo mãe, sendo esposa? 
- Claro que eu sinto querido, mas... 
- Não tem “mas”, nem meio “mas”. Não quero saber de tu trabalhando. Eu te dou tudo, nada te falta. 

Marta murchou. Sabia que o emprego no armarinho não mudaria a perspectiva financeira da família; apenas lhe daria certa autonomia para comprar coisas para si sem depender do marido. Mas, ainda assim, era uma forma de se sentir valorizada e ter o mínimo de possibilidade de ter uma vida sem ser apenas a extensão da sua família. 

Por isso, mesmo com a proibição inicial, Marta não esmoreceu. Continuou em contato com a dona do armarinho, buscou combinar com ela um horário que não atrapalhasse a logística em casa, principalmente com as crianças. 

Nicanor percebia que a mulher parecia estar aprontando algo além das suas vistas. Quando a questionou sobre a novidade dos dias anteriores, ouviu dela: 

- Querido, não vai atrapalhar em casa. Já combinei tudo em relação às crianças. 
- Não te entendo, Marta. Tu quer apenas me afrontar... 
- Afrontar, nunca, querido... é só uma vontade minha. 
- As vontades que é pra tu ter, tu não tem, né... 

Passaram alguns dias assim, às turras, por conta do emprego anunciado. Marta não arredou o pé, mas evitava confrontos. Para ela, Nicanor poderia estar contrariado, mas nada que o tempo não curasse. 

Estava enganada. Há muitos homens que não aceitam estarem contrariados... 

Na véspera de começar a trabalhar, Marta entrou no banho em casa e não trancou a porta, o que normalmente ela não fazia mesmo. Nicanor entrou logo atrás. Carregando um facão, decidiu acabar com aquilo que julgava ser uma afronta. Lembrou-se dos tempos de açougueiro e retalhou a esposa lenta e cruelmente dentro do boxe, enquanto as crianças ouviam os berros de socorro e dor da mãe.

Essa história poderia ser uma ficção. Mas, infelizmente, não é. Guardados os nomes e alguns detalhes, o caso me foi relatado por uma amiga, que era também amiga na vida real da Marta desse conto. O machismo mata no Brasil e isso é uma realidade, embora muitos gostássemos que fosse apenas um causo. Quantos não se sentem donos das suas esposas e ratificam sua posse através de ameaças ou pelo controle emocional e/ou financeiro? Quantas Martas e quantos Nicanores não existem por aí? 

Então? Vamos perpetuar essa realidade ou trabalhar para que ela esteja apenas nas narrativas dos escritores mais carniceiros? 
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: