segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Os Dursley ao Nosso Redor




Lembro de quando li Harry Potter pela primeira vez. Eu já era adulto, é claro. Na verdade, estava no início de uma nova fase na minha vida. Era 2002 e eu tinha acabado de ser chamado para trabalhar na empresa pública para a qual havia prestado concurso, estava durante o curso de três meses oferecido por essa empresa, pela primeira vez efetivamente longe da casa dos meus pais e passando esse tempo no Rio de Janeiro, onde o curso era ministrado. Ali, em meio a novos colegas e passando o tempo entre um dia e outro, eu desvendava os títulos da biblioteca da empresa. Foi quando uma dessas novas colegas (e veja como o mundo muda, essa pessoa que já me foi tão próxima hoje nem me cumprimenta) me perguntou: você já leu Harry Potter? E, por causa dessa pergunta, eu peguei emprestado o primeiro livro na biblioteca da empresa.

Em Harry Potter e a Pedra Filosofal fui apresentado àquele mundo bruxo e a todas aquelas possibilidades. Naquele livro, ainda bastante infantil e um pouco distante do tom mais pesado que a obra ganharia títulos depois, era apresentada uma sociedade paralela à dos humanos normais - chamados de trouxas no mundo criado pela autora - e que vivia uma onda de paz depois de um passado obscuro. Mesmo assim, entretanto, o medo de que aquilo voltasse a incomodar a paz reinante permanecia. Mas não foi Voldemort e toda a história que veio depois que me vieram à mente quando pensei nesse texto. Não, não foi o maior vilão da obra, já que sua vilania era inquestionável. O que me motivou a escrever a coluna de hoje foram os Dursley, a família que criou Harry até ele ser enviado a Hogwarts para viver a sua vida como bruxo e iniciar a jornada que todos acompanhamos nos livros e nos filmes. Você se lembra deles?

Os Dursley eram os parentes mais próximos de Harry. Petúnia era irmã de sangue de Lílian, a mãe de Harry e, por conseguinte, sua tia. Casada com Válter, tinha um filho, Duda, quase da mesma idade do protagonista da história. E logo no início do livro somos apresentados à essa família que, com a morte dos pais de Harry, acabaram o adotando e tomando conta dele. Mas """tomando conta""" entre muitas aspas: Harry dormia em um armário embaixo das escadas da casa e era meio que um empregado de Duda. Seus tios não o amavam de verdade e o culpavam pela "vergonha" que a família passou devido às habilidades bruxas de sua mãe. Ao mesmo tempo, viviam de aparências, preocupados com o que os vizinhos poderiam pensar deles. E eu pensava: será que existem pessoas assim?

É óbvio que Harry Potter é uma fantasia e que a história é conhecida mundialmente. Primeiro os livros e, depois, os filmes, foram sucesso absoluto e a luta do bem contra o mal retratados na obra de J. K. Rowling ganharam os holofotes e uma enorme quantidade de fãs. E é fácil apontar os mocinhos e os vilões da história. E eu poderia estar hoje escrevendo sobre os Malfoy, por exemplo, para me ater ao que eu efetivamente quero dizer. Mas não, prefiro usar os Dursley nessa narrativa. Por que? Porque os Dursley estão entre nós em maior quantidade que os os vilões preto no branco dessa história.

Eu acho, sinceramente, que os Dursley não eram mal intencionados. Havia um ressentimento ali, uma amargura mas, no fim, eles se deram conta de quão errados estavam. E eu tenho fé de que há muitos Dursley entre nós. Sendo bem direto nesse momento: os Dursley são nossos vizinhos, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, nossa família; eles são hoje, eleitores do Bolsonaro e o ajudaram a chegar onde está agora, prestes a ganhar o cargo mais importante da nossa nação. 

Há rancor à nossa volta. Eu não consigo entender, de verdade, pobre, gay, negro, mulher de (extrema) direita. É uma coisa que não faz sentido algum ver alguém que mora na favela que vota na extrema direita. É estranho que um gay se manifeste à favor de um homofóbico. E ver mulheres votando em alguém que as acham inferiores e que merecem menos, já que servem apenas para adornar, é pra lá de bizarro. Mas faço um exercício absurdo para entender essas pessoas limitadas que estão seduzidas por um discurso raivoso e que parece - e é apenas isso, apenas parece - ser a solução para todos os nossos problemas. A mágoa por algo que nem eles sabem explicar não é racional; é um discurso comprado de uma classe dominante que, coitados, eles nem se dão conta de que não fazem parte.

O momento agora é tenso. Estamos prestes a vislumbrar uma guerra em que o resultado dessas eleições será decidido pelo fator menor rejeição. E isso me apavora. Não há dúvidas de que qual seja o "lado" vencedor, dias difíceis estão por vir. Uma nação ainda mais dividida do que já esteve, o ódio fascista borbulhando no caldeirão e soluções bastante complicadas de serem implementadas por quem quer que chegue ao poder. Mas, mesmo sabendo de tudo isso, o que acho mais temerário é um governo que coloque a perder direitos adquiridos e liberdades conquistadas. E um governo que vai fomentar ainda mais o lado pior de todos à nossa volta. 

Assim, termino esse texto com duas retóricas: 

Para você, querido Dursley: tem certeza de que quer fazer parte da história como alguém que ajudou a acabar com liberdades e que fez o país mergulhar em uma onda de ódio e de intolerância? De verdade? Você se dá conta de que, entre todas as obras ficcionais que leu, nesse momento você está no lado errado e para o qual você torcia contra enquanto lia ou assistia aos filmes? 

E para nós, desesperançosos e, nesse momento, acuados e com medo: o que podemos fazer para trazer os Dursley ao nosso redor de volta à razão?

Peço, encarecidamente, discernimento. A todos nós, porque estamos precisando mais do que nunca. 

Harry Potter que me perdoe, mas termino citando Jogos Vorazes (outra boa alegoria desses tempos tão sombrios): que os jogos comecem!
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: