sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Os Invasores de Corpos




No domingo passado, depois dos resultados desanimadores das urnas, divagava, quase chegando em minha casa, como o dia havia sido cansativo. Minha zona eleitoral é longe de casa e adio, a cada eleição, a transferência do título para mais perto. Estava completamente distraído e nem percebi quando aquele rapaz se aproximou de mim e anunciou o assalto.

Já fui pego de surpresa outras vezes. Já reagi (o que recomendo não fazê-lo em hipótese alguma) e já fiquei completamente aparvalhado. Mas naquela fração de segundo, não encontrei nenhuma espécie de sentimento em mim... Não me assustei e não quis enfrentá-lo, até encontrar o seu olhar, que me apavorou. Sabe aqueles momentos em que você parece que chega ao fim e pensa “pronto, acabou”? Pois é. 

Levantei a mão, devagar, sem desviar de seu olhar, como se encarasse um animal selvagem, pronto para me abater. Os segundos pareciam horas e uma espécie de zumbido tomou conta de meu cérebro. Ele gesticulava, bradava e eu simplesmente entregava o que ele pedia, numa espécie de câmera lenta, intercalado em micromomentos em fast-forward. E acredito que minha tranquilidade fez com que o rapaz desistisse de fazer algo pior. Perdi alguns itens materiais, mas estou aqui, escrevendo para vocês. E isso, juro, é somente tudo o que mais me basta. 

Depois do ocorrido, cheguei em casa trêmulo e, naquela noite, não consegui pregar o olho. Em certos momentos embarcava no sono, mas o relaxamento era interrompido por algum som imaginário, acompanhado por aquele mesmo estático olhar de revolta e ódio contra mim.

Na intranquilidade da madrugada adentro, fiquei tentando entender em qual momento nos perdemos. O ódio sempre existiu, mas agora, ele estaria ali, praticamente em todos os lugares possíveis. Os amigos, vizinhos e até a própria família se rebelaram. Tenho a impressão que terem sido contaminados, pois de um dia pro outro mudaram radicalmente o comportamento. A doçura se transformou em intransigência, a sensatez deu lugar à alienação. Ou será que sempre foram assim? Tento me lembrar de circunstâncias, mas elas se esvaem. E existem noites em que fico com medo de dormir e alguma vagem se reproduzir ao meu lado, criando um clone de mim mesmo para que na manhã seguinte eu desperte sem ser quem eu era.

É isso. Sinto que algumas pessoas se transformaram em cópias, ao melhor estilo de Invasion of the Body Snatchers. São os mesmos amigos que inesperadamente não demonstram mais algum tipo de emoção. Gritam ferozmente dentro de suas próprias bolhas para que sejamos capturados e passemos pelo mesmo processo. 

Depois do assalto, tenho evitado encarar o olhar das pessoas e enxergar os mesmos semblantes de ódio. Saio às ruas com medo que alguém faça uma careta e aponte o dedo diretamente para mim. Mas, respiro fundo e, apesar da inquietação, tento transmutar qualquer sentimento ruim em boas energias. Apesar do temor e incerteza, sorrio. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Rodrigo Roddick disse...

É aquele lance do pisca pisca da Emília que você me contou... Uso as palavras do Fantasma do Presente Natal de Scrooge para salientar a frase de Emília "Nosso tempo é curto. O que é importa é o que fazemos com o tempo que nos é dado". Paz sempre.